03 junho, 2015

A COMBINAÇÃO


Há peças de roupa que só vimos em museus ou em pinturas, gravuras, filmes históricos. Podemos ter a consciência do que é um gibão um chaperon, a crinolina, uma casaca, um espartilho, um corpete ou uma cartola, mas trata-se de uma consciência indirecta, não intuitiva, muito diferente da consciência espontânea e imediata que temos de um casaco, saia, calças, polo ou pijama.

Há um pequeno texto de Jorge Luís Borges chamado A Testemunha, onde somos levados até uma Idade Média ainda longe das catedrais, dos frescos de Giotto, dessa outra majestática catedral de conceitos que é a Summa Theologica, das cidades com os seus artesãos, comerciantes e banqueiros, para nos apresentar um homem de um mundo ainda pagão mas em cujo quotidiano já se ouvem os primeiros sinos cristãos. Quando estudamos História, dizemos que há um mundo antes de Cristo e outro depois de Cristo. Mas entre os dois? Não haverá duas correntes distintas que coincidem num único ponto onde sobrevive um "último homem" de um universo que irá brevemente morrer? Ora, foi uma espécie de "último homem" que me senti, há dias, numa aula, ao descobrir que nenhum aluno ou aluna sabia o que é uma combinação. Enquanto lhes explicava o que é, olhavam para mim como se fosse um professor de História a falar do gibão ou da crinolina. Como o homem do conto de Borges, eu faço parte de um mundo onde existe ainda uma consciência espontânea e imediata do que é uma combinação, a qual, entretanto, já se tornou um objecto de uma consciência histórica.

O fim da combinação representa muito mais do que o fim de uma peça de roupa com uma determinada função: é o fim de toda uma concepção de sensualidade feminina. A combinação é um vestido que não é um vestido. O vestido tem uma natureza pública, sendo escolhido pela mulher para ser publicamente vista com ele, e tendo um papel importante na sua identidade pessoal e social. A combinação, pelo contrário, está protegida do olhar público, surgindo na fronteira entre a área privada da pele e a área pública do vestido. É precisamente essa fronteira que lhe confere toda a sua superlativa sensualidade, mais até do que a lingerie mais íntima. Porquê? Um corpo feminino apenas coberto com a lingerie mais íntima já é um corpo sobreexposto, tal como acontece com um biquíni que é uma peça de roupa pública. Se virmos a Terra a partir do espaço, o que mais se observa é água. Do mesmo, num corpo apenas coberto com a lingerie mais íntima, o que mais se vê é pele, sendo, por isso, um corpo aberto ao olhar. Já um corpo coberto por uma combinação possibilita um nível de sensualidade bem mais complexo. Já não se trata de uma intimidade aberta e sem segredos como a da lingerie mais íntima mas de uma intimidade marcada por um jogo dialéctico entre a lógica do pudor, do velamento, da discrição e da insinuação de uma morfologia carnal possibilitada pela presença de um tecido sedoso e fino que contorna subtilmente as formas do corpo. 

Neste sentido, a combinação surge já como uma metonímia, a expressão de uma contiguidade entre a textura do corpo e a textura que o cobre, uma textura velada e outra que a desvela. A combinação é um isco que atrai o olhar para o corpo mas com ardiloso pretexto de o proteger desse olhar. Maior sensualidade é impossível. Paz à sua alma e ao nosso olhar masculino desgraçadamente privado dessa dádiva do vestuário feminino.

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