08 maio, 2015

SÓS

Dorothea Lange | Migrant Daughter, 1936

É normal surgirem impulsos justiceiros a uma mãe cujo filho nasce deficiente ou que morre com uma leucemia aos 5 anos, perguntando que raio de justiça há no mundo quando tanto sacana da pior espécie envelhece sem uma dor de cabeça e a quem tudo corre bem na vida. A pergunta é feita por acreditarmos existir uma ordem no mundo que, entretanto, injustamente avariou na parte que nos coube. E do mesmo modo que um bom electrodoméstico não avaria ao fim de 3 meses, também um pai crê ser absurdo ver morrer um filho de 5 anos.

Trata-se, porém, de uma falsa crença. A ideia de justiça é uma consequência da nossa racionalidade, mas não se aplica a uma vida que não passa de um jogo onde uns ganham e outros perdem sem nada terem feito para ganhar ou perder. Nós preferimos a justiça à injustiça, a ordem à desordem, o cosmos ao caos. É por isso que, num jogo de futebol, quando uma equipa faz um jogo fantástico mas sem conseguir marcar e, nos descontos, a equipa adversária, num cínico contra-ataque, marca o golo da vitória, dizemos que foi injusto. Podemos dizer que foi cruel, não que foi injusto. Um jogo depende de uma sucessão de actos contingentes e não de um tribunal onde um juiz imparcial, aplicando um código racional, decide qual o justo resultado. Os jogadores treinam e jogam mas estão também entregues à sorte e ao azar, a minúsculos acasos que tecem as malhas do destino.

Tivessem as gazelas uma consciência moral e também perguntariam por que razão terão de ser elas a serem comidas pelo leões, quando até só comem erva, não fazendo mal a ninguém. E pensarem o quanto é injusto nascer gazela num mundo de leões, vivendo menos anos do que que gostariam de viver, e acreditam que mereciam viver. Por muito que nos custe, as nossas inquietações morais não valem mais do que as inquietações das gazelas se estas as tivessem pensassem. Nós inquietamos-nos mas o universo não quer saber de nós.