14 maio, 2015

QUINTA FEIRA DE ASCENSÃO

Marina Abramovic

Hoje é o feriado da Ascensão na minha terra, dia de ir para o campo apanhar a espiga. Porém, já não se vai apanhar espiga, aliás, o espírito bucólico já teve melhores dias e a mitologia arcádica que atravessa parte da cultura europeia, sobrevive moribunda. Mas há felizes histórias que ainda fazem o moribundo dar uns estremeções e abrir os olhos antes de morrer de vez. Disse-me uma aluna que lhe foi contado pelos pais que a sua irmã tinha sido feita debaixo de uma oliveira. Eu achei isto maravilhoso, encantador, esteticamente deslumbrante até. Pode parecer indiferente o sítio ou o modo como somos feitos, se foi num locus mais convencional como uma cama, menos convencional como o chão da sala ou até mais heterodoxo como um elevador parado entre dois andares. Mas não é bem assim. Basta pensar em Tristam Shandy, que deve a sua natureza ao facto de o pai, no momento sempre vital e complexo em que se preparava para transmitir a substância homuncular, a mulher, preocupada, lhe pergunta se não se tinha esquecido de dar corda ao relógio, influenciando dramaticamente os espíritos vitais que se transfusionam de pai para filho.

Eu nem quero pensar nas circunstâncias em que foi feito este ser humano de triste figura que sou eu. Sei que não me importaria nada de ter sido feito debaixo de uma oliveira, como a irmã da minha aluna. Enfim, deve ser o meu lado bucólico, dionisíaco, botticelliano, da luz e do campo dos impressionistas franceses. Nada tenho contra as camas. Mas há qualquer coisa de perfunctório na cama que nada tem que ver com o milagre de uma vida que começa. As camas são boas para nascer, morrer, adoecer, ler um livro ou dormir. Claro que não há nada de errado em os amantes se entregarem aos sagrados rituais do deus do amor numa cama. Mas fazer um ser humano, dar origem a um ser humano é coisa demasiado grande para o espaço limitado de uma cama dentro de quatro paredes. Fazer um ser humano deveria obrigatoriamente invocar os espíritos vitais do céu e da terra, das flores e das árvores, das aves e dos insectos, do Sol e do vento, respirando o ar puro do campo no momento da combustão biológica que dá origem a uma nova vida. Eu não conheço a irmã da minha aluna. Mas de certeza absoluta que é uma rapariga abençoada por Deus.