29 maio, 2015

ORFEU E EURÍDICE

Ticiano | Orfeu e Eurídice, cerca de 1508

É muito interessante comparar o libreto escrito por Raniero de Calzabigi para o Orfeo e Euridice, de Gluck, com o mito original. A meu ver, com enormíssima vantagem para o primeiro. No mito, quando estão prestes a regressar ao mundo dos vivos, Orfeu não aguenta mais e olha para a sua amada, contrariando assim a condição imposta pelo deus para a salvar da morte. Uma palermice e imperdoável infantilidade. Como uma criança diabética que não resiste a mais um chocolate. O que acontece na ópera de Gluck é completamente diferente. Eurídice caminha, feliz, seguindo Orfeu. Mas não percebe por que razão o seu amado não lhe fala, não a abraça, não olha para ela. Sentes-se triste e abandonada, ainda que tão próxima do seu amado (Non mi abbracci! Non mi parli! Che fiero momento!). Por isso inquire-o a respeito da sua atitude. Orfeu, perturbado com o desespero dela, não resiste, desrespeitando assim a condição do deus: volta-se para Euridice, que assim volta a cair morta no chão.

Nesta versão, o comportamento de Orfeu já não se explica por uma fraqueza psicológica, uma infantil ansiedade, mas por um conflito entre forças opostas e inconciliáveis. Orfeu sabe muito bem o que deve fazer para salvar Eurídice mas também sabe que isso pode levá-la a ver no gesto do amado uma mecânica obrigação sem qualquer ponta de sentimento e de júbilo. Orfeu pode evitar esse sofrimento mas isso implica a sua morte. Que fazer? Neste caso, mandaria o bom senso continuar a fazer sofrer Eurídice até à sua salvação. Um sofrimento dramático mas como condição da sua salvação. Orfeu, não percebendo isso, continua a ser infantil como no mito original e incapaz de gerir a situação.

O que o libreto da ópera de Gluck mostra é que o sofrimento e a ignorância podem ser condições de felicidade, enquanto o prazer imediato e o conhecimento podem conduzir à infelicidade. Que a vida é também feita de conflitos e desejos incompatíveis e saber viver não consiste em elencar um conjunto de valores positivos harmoniosamente conciliados, dos quais resultará a felicidade. Saber viver é distinguir o bom sofrimento do mau sofrimento, a boa ignorância da má ignorância. Eurídice foi tragicamente morta pelo poder do conhecimento e pelo bondoso desejo de Orfeu a poupar ao sofrimento. 
Aprende-se sempre com os mitos.