17 maio, 2015

O PEQUENO SILÊNCIO

Rurik Dmitrienko

Tenho uma péssima memória, daí a necessidade de sublinhar tudo o que gosto de ler. O sublinhador na mão acaba por ser o meu verdadeiro traço mnésico, o que faz com que os meus romances estejam sublinhados como se fossem livros de estudo. Por vezes gosto de pegar num deles só para reler as passagens sublinhadas. É como ver os fotogramas de um filme visto há muito. O fotograma é como se fosse uma frase solta de um romance, a frase solta do romance é uma espécie de fotograma, um pedaço que ganhou autonomia face ao todo.

O livro de Clarice Lispector, Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres tem passagens maravilhosas mas há um fotograma sublinhado que nunca mais perdi: «Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio, não para o silêncio astral». Eu leio isto e é o famoso § 206 dos Pensées que me vem à memória: «O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me». Foi este pavor que contribuiu para o suicídio do nosso Antero: um homem perdido na Terra e no Cosmos. Antero entendia a necessidade de uma visão mecanicista das leis da natureza e do universo dada pela ciência mas não era capaz de viver com esse árido e atroz mecanicismo que reduzia tudo a um insuportável silêncio: o silêncio escuro e gelado dos átomos e das moléculas, dos planetas, dos abismos cósmicos. Não por acaso Antero vai buscar este soneto de Leconte de Lisle:

              Dieu, n'est plus! Tout est mort! J'ai parcouru les mondes,
              Et j'ai perdu mon vol dans leurs chemins lactés,
             Aussi loin que la vie, en ses veines fécondes,
             Répand des sables d'or et des flots argentés:

             Partout le sol désert côtoyé des ondes,
             Des tourbillons confus d'océans agités...
             Un souffle vague émeut les sphères vagabondes,
             Mais nul esprit n'existe en ces immensités.

             En cherchant l'oeil de Dieu, je n'ai vu qu'une orbite
             Vaste, noire et sans fond, d'où la nuit qui l'habite
             Rayonne sur le monde et s'épaissit toujours;

            Un arc-en-ciel étrange entoure ce puits sombre,
            Seuil de l'ancien cahos dont le néant est l'ombre,
            Spirale engloutissant les mondes et les jours!

Não é deste silêncio astral que fala Lispector mas dos pequenos silêncios. Os silêncios que fazem parte da textura da vida. Uma película fina que se instala entre nós e o mundo, entre nós e os outros, entre nós e o sentido de todas as coisas. Uma película que envolve as próprias palavras quando falamos, uma mistura de som e de silêncio. Uma película que envolve a memória. Quando pensamos no passado há sempre um silêncio que retira peso e densidade ao que outrora foi feito de matéria e sensações tangíveis. Uma película que envolve o mundo visível, seja nos campos ou nas cidades, um silêncio entre nós e o verdadeiro sentidos das cores, das formas, dos sons e dos cheiros. É por isso que há silêncio no urbano burburinho das cidades como há silêncio no próprio silêncio de uma noite campestre. Uma película que envolve os risos, as lágrimas, as alegrias e as tristezas. Na própria guerra há um silêncio que consegue abafar o poderoso e estridente som dos canhões e dos gritos de dor e desespero.

Tecnicamente, a música é feita de sons e de silêncios. Mas trata-se de uma partilha entre dois elementos que se tocam mas não se sobrepõem. Sons e silêncio são como dois pares cuja dança faz a própria música. Mas não é disso que falo. Eu não estou a falar de um par que se enfrenta. Falo de uma  fusão, de uma mistura entre as coisas materiais e o silêncio. O silêncio que há num rosto, o silêncio que há numa voz, o silêncio que há no riso, o silêncio que há na brincadeira inocente de uma criança, o silêncio que há num beijo, o silêncio que há num parto, o silêncio que há nos passos que se ouvem no interior de uma igreja, o silêncio que há no rebentamento de ondas enormes na impávida quietude da areia. Não é, pois, um silêncio exterior às coisas mas um silêncio entranhado nas próprias coisas. Aprender a ouvir este silêncio é aprender o pulsar da própria vida.