02 maio, 2015

O DIA 2 DE MAIO

Lewis Hine | Mineiros de carvão

Dorme gente importante no cemitério de Highgate, em Londres. Um dos inquilinos mais conhecidos é Karl Marx, em cujo túmulo está gravada a famosa frase do Manifesto Comunista «Workers of all lands unite». Aqui há uns anos passei por lá, não para reverenciar alguém, apenas pelo prazer de passear num maravilhoso cemitério vitoriano. Ainda assim, não pude evitar uma sensação estranha ao passar pelo seu túmulo. Não só por estar perante alguém com quem passei dias e noites da minha vida, a estudar as suas ideias e a escrever sobre elas. Foi o facto de associar o impacto de uma frase tão catalizadora, escrita num ano tão efervescente como o de 1848, a um homem que jaz ali morto, rodeado de árvores antigas, ao lado de túmulos cobertos de heras e de musgo, num umbroso e sepulcral silêncio, apenas interrompido pelo som dos pássaros, longe da ruidosa agitação da grande cidade. A frase de um homem que do mundo nada sabe desde o último batimento do seu coração, nem sequer das revoluções feitas em nome dela ou do fim dos regimes sustentados pelo seu nome, enfim, das grandes transformações no mundo, a que ele tanta apelou na 11ª tese sobre Feuerbach, aquela em que ele diz que os filósofos não devem interpretar o mundo mas transformá-lo.

O que pode querer hoje dizer esta frase escrita no Manifesto Comunista de 1848? A frase foi escrita num ano de revoluções na Europa, durante a chamada "Primavera dos Povos", tendo como expectativa uma grande revolução mundial, socialista, de operários dickensianos, miseráveis, analfabetos, humilhados e ofendidos marginais. Entretanto, estes operários já não existem nem hoje faz sentido esperar uma revolução socialista e operária para voltar a repetir a URSS, a Roménia, a Bulgária, a Albânia ou a China. 

Daí eu achar que devemos adormecer no dia 1 de Maio para acordarmos, com espírito novo e revigorado, no dia 2 de Maio. Um 2 de Maio que nos dê uma nova linguagem, novos conceitos, novas acções, novas formas de luta e de protesto. Por muito valor que tenha tido o Marx que repousa em Highgate, os seus conceitos, o seu mundo, os seus operários, os seus capitalistas, os seus políticos, já não são os nossos. Fazer do marxismo, como muitos ambicionaram, uma religião, ou "a" verdadeira ciência e "a" verdadeira filosofia, seria hoje um absurdo sem pés nem cabeça e com custos muito elevados para aqueles que visa proteger. As belas e vetustas heras que o rodeiam em Highgate já não se compadecem com as novas eras que aí vêm. É hoje, dia 2 de Maio, não ontem, que precisamos de compreender o que há para fazer, em vez de tentarmos apenas transformar sem saber muito bem para onde e para quê.