20 maio, 2015

LET'S GET PHYSICAL

Dane Shitagi

Como reagiria um pintor como Degas a uma notícia como esta? Aliás, basta-me pensar como reagiria uma pessoa do século XIX. Um século no qual ainda consegue conciliar o espectáculo de uma ciência e técnica emergentes com a valorização de um elevado sentido estético nas mais variadas dimensões da vida quotidiana. O que Degas, ou uma pessoa do século XIX, não iria compreender, é a possibilidade de uma calculista relação entre a prática do ballet e a ideia de exercício físico, levando a concluir que, graças à avaliação científica de um acelerómetro, será mais aconselhável a prática do hip-hop para uma menina entre os 5 e os 10 anos.

Eu acho muito bem que as pessoas se preocupem com a sua condição física e estar em boa forma. O problema é reduzir as coisas ao sagrado critério da funcionalidade. A amplitude é grande: vai desde os pais que inscrevem os filhos na música porque desenvolve o raciocínio lógico-matemático que vai dar jeito para entrar em Medicina, em Economia na Nova ou Engenharia no Técnico, passando pelo modo como se projectam hoje os edifícios e as cidades, até ao que as pessoas comem, ou ainda ao sexo visto como actividade terapêutica, ao jeito do que defendia Wilhelm Reich no célebre A Função do Orgasmo

O ballet permite uma esteticização do corpo? Uma relação privilegiada entre o corpo e a música?  A criação de beleza? Que importância tem isso perante a mais-valia para a saúde que é dançar hip hop num ginásio? O que conta são apenas os aspectos práticos, funcionais, utilitários. Entretanto, se a lógica da funcionalidade tem revelado consequências graves no plano arquitectónico, urbanístico e do modo como se concebe tanto da vida material que nos rodeia, ao atingir as motivações pessoais dos seres humanos, torna-se verdadeiramente dramática.