18 maio, 2015

JESUS CRISTO COR DE ROSA

Duane Michals | 1982

Ainda hoje existem excitações várias a respeito da existência empírica de Jesus Cristo. Não sobre a sua existência, que parece ser consensual, mas irrelevâncias bizantinas que nutrem o nosso córtex teológico como uma revista cor de rosa os pacientes na sala de espera de um consultório. O putativo casamento de Jesus é um velho clássico deste tipo de questões. Mas será assim tão relevante saber se Jesus era casado? Usando o calão filosófico, pergunto se o casamento de Jesus é um elemento necessário ou contingente da sua identidade? O carro tem cor mas não é a cor que faz com que seja um carro em vez de um comboio ou um elefante. Ora, não estará o casamento para a identidade de Jesus como a cor para o carro? O seu casamento não mexe na sua identidade nem na natureza da sua mensagem, tal como não mexe na identidade de um professor, canalizador ou bancário. Quando vou ao banco não quero saber se o funcionário que me atende é casado ou solteiro, hetero ou homossexual, se é virgem ou faz sexo com frequência. O mesmo se passa quando penso no homem que é descrito nos Evangelhos. Poder-se-á objectar que se trata de uma falsa analogia, uma vez que Jesus Cristo não foi um simples funcionário do BCP. Mas, não o sendo, e apesar da sua origem divina, tem algumas coisas em comum com um funcionário do BCP: era um homem, mesmo sendo um homem chamado Jesus Cristo. Saber se o homem que disse ou fez as coisas descritas nos Evangelhos era ou não casado, não vai alterar a verdadeira essência espiritual, moral e existencial do seu pensamento e do seu exemplo enquanto homem que nasceu, viveu e morreu entre semelhantes, ou seja, o que é verdadeiramente cristão. Tudo o que seja valorizar aspectos empíricos e contingentes da sua existência não passa de entretenimento próprio de um voyeur. Pode não o ter sido para os primeiros cristãos mas sê-lo-á para nós, hoje.  No que a mim diz respeito, é só mesmo quando vou ao dentista que gosto de me ocupar com assuntos cor de rosa.