06 maio, 2015

ESTOU, LOGO EXISTO

Duane Michals | Ludmilla Tchérina, 1964

Uma obra de arte só se torna um objecto estético quando anulada a distância entre a obra e o espectador, quando este deixa de estar "perante a obra" para se perder nela. Quem o diz é Mikel Dufrenne e faz sentido que assim seja. Citando o filósofo: "Estou perante a orquestra mas dentro da música". E quem diz música diz pintura, um texto ou um filme. 

O que dizer então disto? Não me refiro ao significado social ou estético do acontecimento em si, apenas interrogo por que razão as pessoas, como bons pistoleiros pavlovianos, sacam logo do telemóvel para registar o evento, em vez de se limitarem a ouvir no interior de um bonito café? Tal acontece porque, mais do que usufruir da música, ou de sentir a música (como diria um romântico), o que importa é sentir que se esteve lá, que se viveu o acontecimento que irá depois ser mostrado numa rede social.

Filmar ou fotografar implica a presença de dois pólos opostos que se encontram face-a-face: a consciência de quem regista e um objecto registado. Neste caso em que se filma o acontecimento musical, a pessoa não só não se "perde no objecto" (como na experiência estética), como nem sequer chega a estar "perante o objecto". O que acontece é outra coisa: submeter o objecto, servir-se dele, usá-lo, guardá-lo, para provar a existência de alguém que está onde as coisas verdadeiramente acontecem, onde é bom estar e onde presumivelmente todas as pessoas gostariam de estar em virtude da sua fama ou momentânea espectacularidade. "Estou, logo existo", "Vi, logo existo", mas também "Dei a ver, logo existo", eis as chaves do processo. Não chega pensar, ver, sentir, ouvir, para existir. É preciso, sobretudo, mostrar o que se vê ou ouve, sacrificando a vivência do momento, uma vez que a câmara ou o telemóvel separam a consciência do acontecimento, o oposto do que sugere Dufrenne, transformando a pessoa, não num sujeito estético, mas num corpo que apenas serve de suporte à máquina que regista o acontecimento, ficando feliz com o estatuto de simplesmente "estar lá".

Daí muitas pessoas gostarem e precisarem tanto de filmar ou fotografar o que estão a ver ou a viver, uma camada narcísica que se sobrepõe à camada vista ou vivida. O que mais importa não é ver, mas ver-se a ver. E isto tanto acontece aqui no Majestic como em muitas outras situações nas quais, mais importante do que "estar perante", é "mostrar estar perante", diluindo a realidade numa consciência com medo do seu próprio vazio.