26 maio, 2015

DOS CONSERVADORES - AS DUAS IRMÃS


Toni Frissel | 1947

Numa das Pequenas Obras Morais escritas por Giacomo Leopardi em 1824, há um diálogo muito engraçado entre a Moda e a Morte. A primeira mete conversa com a segunda, mas esta, arrogante e com a mania da superioridade, não lhe dá troco, invocando Petrarca, que se refere ao seu triunfo sobre todas as coisas. Mas a Moda não se deixa vencer e reage, mostrando-lhe que, lá no fundo, são irmãs muito parecidas:

"- E sei que tanto uma como outra nos dedicamos de igual modo a destruir e a alterar continuamente as coisas aqui em baixo, embora para esse efeito tu sigas por um caminho e eu por outro. Digo eu que a nossa natureza e hábito comum é renovar o mundo continuamente, mas tu desde o princípio sempre te atiraste às pessoas e ao sangue; eu contento-me, quando muito, com as barbas, os cabelos, as roupas, as mobílias, os palácios e coisas que tais. É bem certo, porém, que nunca deixei nem deixo de fazer muitas partidas que se podem comparar às tuas, como por exemplo esburacar umas vezes orelhas, outras vezes lábios e narizes (...) aleijar as pessoas com os sapatos elegantes, prender-lhes a respiração e fazer com que os olhos lhes saltem das órbitas por causa do aperto dos espartilhos, e mais cem coisas do mesmo género. Aliás, falando de um modo geral, eu convenço e forço todos os homens civilizados a suportarem todos os dias mil canseiras e mil incómodos e muitas vezes dores e suplícios, e alguns a morrerem gloriosamente, pelo amor que me têm".

Que sejam irmãs. A morte, por inerência, é mais temível do que a moda. Mas o seu processo de "destruir e alterar continuamente as coisas aqui em baixo" ou de "renovar o mundo continuamente" é, por muito que nos custe, um processo natural e até desejável. A moda, como assume a própria, é também uma forma de morte. Trata-se, porém, de um processo acidental e arbitrário em que se aniquilam coisas estabelecidas convencionalmente para fazer nascer outras tão convencionais como as anteriores. Ora, daí não vem qualquer mal ao mundo. Não tem mal nenhum que num ano as mulheres andem com calças verdes para dentro das botas e no ano seguinte com as botas para dentro de calças vermelhas. Ou que nos metamos a beber uma coisa só porque é moda bebê-la. Podemos parecer macaquinhos de imitação mas são macaquices inócuas, próprias de animais gregários.

O problema é quando a moda sai do fútil território das calças, das saias, das cores, das bebidas, das músicas, dos destinos de viagem, esses pequenos divertimentos, para invadir formas de interpretar o mundo ou de agir nesse mundo, ficando-se muitas vezes com a ideia de não haver qualquer vantagem nisso ou de até se ficar pior. E sendo o poder da moda tremendo como o da morte, o prazer de fazer X ou de pensar Y só porque é moda, para além de irracional, pode ser também perigoso. Porque destrói só por destruir, muda só por mudar, sem pesar os prejuízos ou benefícios dessa mudança tendo apenas como vantagem o orgulho de ser moderno ou beneficiar os interesses de alguns que ganham com essa mudança.