05 maio, 2015

AQUILES SEM TARTARUGA


São célebres as fotografias de Harold Edgerton, como a desta bala congelada no momento em que atravessa uma maçã ou de uma gota de leite a salpicar ao bater num fundo. Em 1987, a National Geographic dedica-lhe um artigo com o sintomático título The man who made time stand still.

É fascinante a possibilidade de assistirmos a um fenómeno físico imperceptível a olho nu devido à velocidade. Mas o que é fascinante aqui tornar-se-ia um pesadelo se pudéssemos imobilizar mentalmente os fenómenos dos quais são feitas as nossas vidas, observando meticulosamente todos os seus elementos, como nesta maçã que explode. Um pesadelo porque, na vida, os vazios, desperdícios, vácuos, pequenos nadas, espaços em branco, os esquecimentos, as sombras, a ignorância, são tão importantes como a plenitude, os espaços ocupados, o ruído, as memórias, a luz, o conhecimentoSe as pessoas tivessem uma visão microscópica das suas vidas, olhos para verem o milimétrico desenvolvimento de tudo o que fazem, ficariam imobilizadas num labirinto feito de causas e efeitos, tornando a vida insuportável.  O saber absoluto, se existisse, seria um cárcere que levaria à alienação. Felizmente, não temos a capacidade mental das fotografias de Edgerton. Uma imperfeição que, como tantas outras imperfeições humanas, é um luxo.