07 maio, 2015

ALBRECHT DÜRER - CRISTO ENTRE OS DOUTORES


Lucas não diz grande coisa sobre o encontro de Jesus, ainda criança, com os doutores: 

Volvidos três dias, encontraram-n’O no Templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos quantos O ouviam estavam estupefactos com a Sua inteligência e as Suas respostas.

Mas o que mostra Dürer na tela parece muito diferente: ninguém faz perguntas, ninguém responde, aliás, ninguém fala, apenas um desordenado conjunto de rostos e de mãos. Jesus está no meio dos doutores mas o seu olhar evasivo não deixa dúvidas sobre o seu espírito ausente. Os doutores, por sua vez, apenas mostram desconfiança, perplexidade, arrogância, soberba. De diálogo, nada. Estará então o pintor a deturpar grosseiramente o texto de Lucas? Não, limita-se a mostrar o que na verdade se passou: nada. A mostrar dois níveis de realidade que surgem como duas linhas paralelas que jamais irão coincidir. Jesus representaria uma linha, os doutores, a outra. Lucas sugere, de facto, um diálogo, mas Dürer não o vê. Tal não implica desmentir o texto do evangelista. Eles estão ali, certamente conversaram, houve perguntas e respostas. O que o pintor faz é outra coisa: ao não ver o diálogo, acaba por vê-lo ainda melhor, mostrando a verdadeira natureza de certos diálogos que não passam de desencontrados monólogos, o que pode estar não muito longe do que também pensaria Lucas. 

Os doutores reflectem, pensam, estudam, analisam e decidem. Há nas suas tortuosas cabeças, séculos de sabedoria alimentada pelos pesados e austeros livros, ali exibidos como oráculos. Mas na cabeça do jovem, pintado por um alemão do século XVI mas com a cabeça de um francês do século XX chamado Saint-Exupéry, nada disso existe, iluminada apenas por estranhas parábolas e metáforas cuja evidência reduz a pó todos aqueles quilos de sapiência e erudição. Ora, isto não é dialogar mas falar sem ser ouvido. Cristo não precisa de pensar, pois, como muito bem entendeu Pascal, o coração tem as suas razões que a razão jamais entenderá. Por muito que se esforce, a razão jamais entenderá o essencial, o que se vê sem ser preciso explicar, e a simplicidade e inocência das metáforas e parábolas da criança só fazem sentido para quem percebe com o coração. O reino dos complicados doutores, porém, não é o do coração mas o sinuoso reino da erudição, onde será sempre preciso pensar para não se perder. E quem vive num dos mundos nada diz a quem vive no outro, pois não existem dicionários que traduzam de uma língua para a outra.

Eis porque nesta cena montada por Dürer, o ar que se respira é o da incomunicabilidade. Ainda há dois pares de mãos que se chegam a tocar, havendo ali um vislumbre de contacto, de um subtil diálogo gestual. Mas não passa de uma ilusão. As mãos do jovem estão mais em contacto entre si do que com as mãos do doutor. E as mãos deste, caminhando para as mãos de Jesus, parecem falhar a aproximação. Até porque o doutor olha em frente, como se nem desse pela presença do jovem, o mesmo, aliás, acontecendo com os outros. Transformássemos esta tela num díptico, em duas partes distintas, e nada se perdia. Pelo contrário, ganharia uma evidência maior, representando cada uma delas a sua peça de teatro.