01 maio, 2015

1º DE MAIO

Tobias Harvey

Se há feriado que não me diz nada é o de hoje. Eu até gosto de trabalhar e creio poder dizer que sou competente e responsável. Mas detesto a ideia de me pensar ou sentir como "trabalhador", tal como não acho graça nenhuma ver-me como "contribuinte", "consumidor", "utente", ou, pior ainda, de acordo com a moda que afectou a caixa dos pirolitos de tanta gente infectada com a ideologia do empreendedorismo, ser tratado por "colaborador" em vez de professor. Confesso que a própria ideia de ser um cidadão me é estranha. Tenho respeito filosófico pela ideia de cidadania e tudo o que ela envolve. Mas não é um cidadão que vejo no espelho quando lá chego para lavar os dentes, ou quando penso na minha identidade. 

Sim, sou trabalhador, levo o meu trabalho a sério e reconheço o trabalho como motor fundamental da economia e do progresso social, mas não sinto qualquer romântico ou épico sentimento por este dia dedicado à parte de mim que trabalha. Sei que é dia do trabalhador mas não visto a camisola. Nunca me revi naquela retórica marxista do trabalho e do trabalhador e ainda hoje sinto arrepios com a soviética ou chinesa mitologia do operário e do camponês, do engenheiro e do trabalhador intelectual. Até um escritor era um trabalhador intelectual. Nada tenho contra os trabalhadores mas nunca sinto que estejam a falar de mim quando oiço os partidos de esquerda radical ou os sindicalistas a falar nos trabalhadores isto e trabalhadores aquilo, fazendo dos trabalhadores heróis de uma mitologia laboral. Eu próprio sou também trabalhador e enquanto pessoa com trabalho tenho muito respeito por todos os desempregados que gostariam de trabalhar e não conseguem. 

Mas uma coisa é o acto de trabalhar outra é o impacto que o acto de trabalhar tem na minha identidade. Há quem se orgulhe de ser metalúrgico, médico ou professor. Eu não me orgulho de ser professor, gosto apenas de o ser, como gosto de ser tanta coisa que passa por não ser professor. O dia de hoje é bom precisamente porque posso aproveitar para fazer uma das coisas de que mais gosto de fazer na vida: não trabalhar. Há quem precise de trabalhar muito para se sentir vivo. Eu também me sinto bastante vivo enquanto trabalho mas não preciso de trabalhar para me sentir vivo. Acredito que não devemos viver para trabalhar mas trabalhar para viver. E que é para lá do trabalho que se deve encontrar a verdadeira vida.