11 abril, 2015

VER PARA DESCRER

Arthur Steel

Há dias, numa aula, calhou falar de religião. Presumi que o facto de muitos alunos terem frequentado a catequese lhes desse uma razoável cultura bíblica. Descubro, entretanto, nada saberem de Abraão, do dilúvio, de pragas de gafanhotos, de Sodoma e Gomorra, do bezerro de ouro, de Sansão e Dalila, de Salomé. Lázaro, quem? Alguns nomes não são de todo desconhecidos, Abraão, sim dilúvio e Arca de Noé, claro, quem nunca ouviu falar?, mas os significados encontram-se dissolvidos na escuridão da ignorância. Perplexo, indago então sobre o que faziam nas aulas de catequese. "Ver filmes", disseram.

Eu gosto muito de cinema mas sinto um grande desconsolo (no seu mais puro sentido etimológico) por já nem a catequese resistir à epidemia dos filmes como recurso didáctico para tudo e mais alguma coisa, à qual já aqui aludi. O objectivo parece nobre: ver um filme como ponto de partida para pensar, reflectir, debater. O que já nem os catequistas parecem entender, e se um catequista não entende, ninguém mais entende, é que no princípio é o verbo. E se isso é importante na Filosofia muito mais o será na religião. Neste caso, o verbo enquanto história, narrativa, fábula, alegoria, metáfora, parábola, símbolo, personagem. Uma criança ou um jovem não deve começar por pensar, reflectir, debater. Deve calar-se e ficar quietinho a ouvir ou a ler histórias. Pode perguntar mas apenas para continuar a ouvir ou a ler histórias. 

A humanidade não começou com a Filosofia e a ciência mas com o mito, sendo também pelo mito que a criança deve abrir os olhos tanto para o mundo como para si própria. Claro que se deseja que um dia mais tarde venha a pensar, reflectir, debater. Pode até desmistificar e desconstruir todo o seu universo mental, mas o que ganhou antes de ter lá chegado, jamais irá perder. Nunca ter chegado a ganhar será sempre uma perda irreparável na formação de qualquer ser humano.