04 abril, 2015

UMA TRAGÉDIA ALPINA


David Lean | Blithe Spirit [fotograma]

Há várias expressões usadas nos órgãos de comunicação social às quais reajo com alguma irritação. Uma delas é a de "tragédia", lida ou ouvida sempre que há situações como acidente aéreos, incêndios onde morrem bombeiros, atentados terroristas de grande impacto. Acontecimentos que são, para os nossos jornalistas, intrinsecamente trágicos, mais ainda quando há crianças entre as vítimas.Trata-se, porém, de um grande disparate. Um acidente, seja por razões mecânicas, falha humana ou condições meteorológicas, não é uma tragédia, é um acidente. Um atentado é um atentado. A morte pode ser triste, perturbadora dolorosa mas morrer não é um acto trágico. Morrer é morrer. A própria guerra, guerra na qual podem morrer milhões de pessoas, não é uma tragédia, é uma guerra. A Ilíada, que não fala de outra coisa senão de guerra, não é uma tragédia, é um relato da Guerra de Tróia. Tudo situações que mostram o ser humano tal como ele é, com a sua finitude, os seus condicionalismos, erros, falhas e  naturais conflitos. Conflito que, nesta acepção, por muito cruel que seja, faz parte da ordem natural das coisas, tal como o preto e o branco, o quente e o frio, o seco e o húmido, o doce e o amargo, o Inverno e o Verão ou uns e os outros.

Já o acidente da Germanwings apresenta o inodoro cheiro da tragédia. Não existem condições meteorológicas adversas, falhas mecânicas ou erros humanos. Há, sim, um homem que estando destinado a levar todos aqueles passageiros que nele confiam ao seu destino, não sendo, por isso, um inimigo natural, resolve, através de uma desmedida vontade individual, desafiar esse destino e anular a ordem estabelecida . Uma ousadia que instala um conflito, mas não um conflito natural como entre gregos e persas, católicos e protestantes, liberais e miguelistas, republicanos e falangistas, cristãos e terroristas islâmicos. Trata-se antes de um conflito entre um indivíduo e uma comunidade, em que o primeiro, conduzido por um impulso que ele próprio não compreende nem domina, e cada vez mais mergulhado na sua própria sombra, à margem das convenções, força uma catástrofe que transcende qualquer deliberação enquanto exercício racional fruto do nosso livre-arbítrio.