20 abril, 2015

UM MUNDO FOFINHO

Diane Arbus

É suposto cada pessoa dizer ou não dizer certas coisas em função das suas ideias, personalidade ou desejos. Mas há muita coisa que uma pessoa diz porque lhe é imposto dizer pelo seu tempo, ou que não diz porque esse mesmo tempo lhe impõe não dizer. Há coisas que um homem era obrigado a pensar, desejar e a dizer por viver num dado século, e que nós somos obrigados a não pensar, desejar ou dizer por vivermos no século XXI. Se eu não digo que gostaria de ter escravos, não é porque, livremente, não o queira dizer. Mesmo sabendo que já não existe escravatura, eu poderia desejar um mundo em que existisse. Se não o digo, é porque o meu século me impede de o pensar, desejar e finalmente dizer, quase com a mesma rigidez com que o meu corpo não me deixa respirar debaixo de água ou viver sem comer. Quando uma jovem actriz de telenovelas diz numa revista que deseja ter um casamento para toda a vida, está a dizer uma coisa que a sua avó não poderia dizer, uma vez que um casamento, por inerência, seria para toda a vida, de acordo com uma ordem social que formatava as crenças, desejos e discursos, enquanto hoje tal crença, desejo e discurso confere a alguém uma identidade romântica, sonhadora e optimista, num meio social em que os casamentos se fazem e desfazem quase tão naturalmente como a noite e o dia.

Feita a maçadora mas necessária introdução, passemos então a esta notícia e ao que diz o porta-voz da família das duas mulheres assassinadas. Lamentando a morte da mais velha, invoca virtudes que, grosso modo, extravasam o nosso tempo. Muito mais interessante é o que diz sobre a jovem. Tal como em relação à mais velha, invoca o seu lado de"outgoing person". Esta, sim, uma característica cada vez mais valorizada numa época de histérica publicidade do eu, imposta por uma lógica de rede social em que o peso da existência de cada um depende do seu número de aparições públicas, levando assim toda a gente  a estar em permanente contacto com toda a gente o mais tempo possível, a ver e a ser visto, numa espécie de "outgoing life" com alifalantes que nunca se desligam e risos que nunca desaparecem perante o disparo  do telemóvel conectado com o Facebook quase em tempo real.

Estou neste momento a ler um romance chamado Middlemarch, onde o retrato psicológico e social de muitas personagens da Inglaterra do século XIX é minuciosamente desenhado pela pena da escritora. Antes, lera o Retrato de uma Senhora, cuja acção decorre igualmente no século XIX, com uma lista de personagens menor mas igualmente generosa. Não consigo imaginar no elogio fúnebre de qualquer um deles, a invocação de uma "outgoing person", ao contrário de outras virtudes morais ou psicológicas, inestimáveis para um habitante desse século já tão longínquo. E mais afastados nos sentimos quando o porta-voz invoca uma "cheeky and bubbly person" cuja morte devemos lamentar. "Cheeky and bubbly person?" É impressão minha ou poderíamos estar a falar do Bambi?

O amor do povo inglês por animais (excluindo raposas) é por demais conhecido. Poderá assim não surpreender, relevar o facto de não ser apenas uma "outgoing, cheeky and bubbly person" mas uma "outgoing, cheeky and bubbly person who loved her dog". Não estou a ironizar sobre o amor de algumas pessoas por animais. Não só os animais merecem todo o respeito como seres sencientes, como respeito esse amor. A questão não é essa, é ser precisamente a característica relevada num elogio fúnebre. Neste sentido, é tão sintomático o que não se diz como o que se diz, o que não se diz num elogio ganha tanta visibilidade como o que se diz, como ganhará num elogio fúnebre do século XIX, se lido agora. Por vezes preciso de fazer algum esforço mental para na minha consciência simular a experiência mental de outras consciências. No caso, porém, de imaginar uma pessoa de outro século, com o seu quadro de valores e referências, a ler um elogio fúnebre no qual se invoca uma "outgoing, cheeky and bubbly person who loved her dog", ver a expressão do seu rosto é quase tão fácil como o teclado que tenho à minha frente. O que não faz dela uma melhor ou pior pessoa, sublinhe-se. Com a distância que me é possível, estou apenas a tentar fazer alguma sociologia.