27 abril, 2015

SOLILÓQUIO NA COZINHA


Ontem, quando vou para lavar a loiça descubro que está a faltar a água, deixando assim tudo amontoado no lava-loiças. Fiquei aborrecido, claro, mas como a vontade de a lavar era nula, senti também alívio por não o fazer, ter o meu momento de sentir prazer por não cumprir um dever. Entretanto, depois de cumprir mais umas tarefas domésticas, regresso de novo ao lava-loiças mas com o íntimo desejo de que continuasse a faltar a água. Eu sabia que tinha de a lavar, mas sabendo também que sem água não o poderia fazer, e ainda para mais com a consciência tranquila por não ser eu o responsável. Descubro, porém, que a água tinha voltado. Mas como a vontade de a lavar permanecia nula, pensei que embora já tivesse vindo a água, poderia muito bem ter-se dado o caso de não ter vindo. Não era a realidade mas uma verosímil possibilidade, uma possibilidade que apesar de não se ter confirmado, seria tão legítima como a sua contrária, uma vez que a possibilidade de certas coisas que acontecem, não terem acontecido, é idêntica à possibilidade de certas coisas que não acontecem, terem acontecido.  Foi precisamente isso que eu disse a mim mesmo, com aquele cínico sorriso na alma de quem se sente um Deus a decidir como vai ser o mundo. Fui então sentar-me a ler um livro.