05 abril, 2015

RUÍNAS

Andrei Tarkovski | Nostalgia [fotograma]


«Nessa tarde, Isabel saiu só, de carruagem; desejava ir até longe, até um lugar onde visse bem o céu e onde pudesse apear-se para vaguear por um campo de margaridas. Havia algum tempo que tomara a velha Roma por sua confidente, pois numa cidade em ruínas, a ruína da sua felicidade tomava aspecto de uma catástrofe menos horrorosa. Deixava repousar a sua ansiedade sobre coisas que se  haviam desmoronado há séculos e que se conservavam, no entanto, ainda de pé; destilava a sua oculta tristeza nesses sítios solitários em que a sua actualidade se destacava e crescia mais, e, sentada num dia de Inverno, a um canto soalheiro, ou escondida numa igreja de paredes musgosas onde mais ninguém chegava, Isabel quase que sorria, pensando na pequenez dos seus infortúnios. Eram na verdade pequenos em meio das recordações de Roma; e a sensação  de continuidade dos destinos humanos levava-a facilmente a esquecer os mais mesquinhos para só pensar nos maiores. Conhecia agora a Cidade Eterna como aos seus dedos, e isso, misturando-se-lhe aos sentimentos, atenuava-lhe a desdita». Henry James, Retrato de uma Senhora, Cap. XLIX


«Isabel não assumia o papel de cicerone severo; costumava visitar as ruínas principalmente porque elas lhe davam pretexto para falar de outras coisas além dos amores das senhoras de Florença, matéria sobre a qual a outra lhe fornecia inesgotáveis informações». Cap L
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O narrador, ao falar de ruínas, está muito longe de seguir quaisquer requisitos históricos, programáticos ou estéticos. Tema romântico por excelência, as ruínas deram origem a uma moda responsável por inúmeras produções artísticas, assim como reflexões sobre o encanto e fascínio exercido por elas, sejam as solitárias ruínas de uma abadia medieval dissimulada no meio de uma espessa vegetação, sejam imaginárias ruínas urbanas como as de Hubert Robert que tanto encantaram Diderot. 

O narrador é menos ambicioso: deseja apenas estudar com improvisado sentido de observação a consciência de Isabel Archer. Ou melhor, talvez por isso mais ambicioso, se pensarmos na volátil condição do objecto observado e da sua grande impermeabilidade ao poder da teoria. O estudo é feito em dois tempos, justificados pelas duas diferentes disposições face ao poder da paisagem, em função dos respectivos contextos. No primeiro caso, temos a presença das ruínas como ponto de partida para um exercício introspectivo e existencial. Isabel, apercebendo-se do seu declínio pessoal, sente-se mais confortada perante a natural decadência das mais grandiosas construções humanas, relativizando assim a sua própria infelicidade. O segundo caso, nada tem que ver com o anterior. Sem disposição e espírito para o gossip aristocrático da cunhada, Isabel percebe que a presença das ruínas dispõe naturalmente a mente humana para territórios menos prosaicos e facilmente desfeitos pela espuma dos dias, ganhando assim uma outra dignidade psicológica e espiritual.

O narrador assume um sentimento de inquietante estranheza induzido por este tipo de paisagem, explorando diferentes caminhos para o eu, tanto num movimento de concentração em si mesmo, como de fuga ao fútil e desinteressante quotidiano, em busca de uma maior autenticidade. Todavia, a paisagem não estimula o mesmo tipo de pensamento moral do vanitas vanitatum omnia vanitas, enquanto murro na consciência sempre que se abre o Eclesiastes.

O objectivo não é fazer declinar o império do eu perante o poder esmagador da morte e destruição mas antes, perante o declínio de impérios passados, proteger o eu, tanto de si próprio como do mundo exterior. Não são apenas os conceitos, as palavras, que fazem pensar. Também a imagem faz pensar, neste caso, as ruínas. O narrador, por interposta personagem, em vez de uma exacerbada humildade judaico-cristã, propõe uma defesa do eu, não no sentido de uma desmedida ambição e vaidade mas de uma serena e apaziguadora busca de si próprio que, não trazendo felicidade, também nos protege do seu contrário. Daí que, mais do que de um pathos romântico, estamos, na obra de James, bem mais perto de uma serenidade clássica, nascida no que outrora foram estas ruínas onde agora se pisam margaridas.