13 abril, 2015

RATINHOS COLORIDOS




A linguagem escrita permite uma imagem mais plena, e com tanto mais valor por ser mais vaga. No fim de contas, a verdadeira visão é interior; e a pintura impõe-se olhar com uma persistente imperfeição. Sinto isso sobretudo nas representações femininas. Como se as mulheres fossem simplesmente superfícies coloridas. George Eliot, Middlemarch


Mal acabei de ler o Retrato de uma Senhora, de Henry James, fui ver o Retrato de uma Senhora, de Jane Campion. Sempre que há um filme baseado num livro célebre, surge a clássica discussão sobre qual deles é melhor. Por um lado, trata-se de um falso problema, uma vez que se compara o incomparável. É como perguntar quem é melhor, se Ronaldo ou Federer, por terem coisas em comum, como serem desportistas e jogarem com uma bola. Mas a comparação será sempre inevitável pois desde a primeira cena de um filme que o livro está lá como sombra ameaçadora. Claro que aconteceu o mesmo desta vez, sendo o resultado catastrófico, um exercício penoso, e sabe Deus o que tive de lutar comigo mesmo para conseguir chegar ao fim. 

Como explicar? É como estar a olhar para uma daquelas gaiolas laboratoriais com ratinhos, para observar os seus movimentos, o que fazem e como fazem. Não há nada de errado nisso, pois os ratinhos não têm uma vida interior complexa, bastando conhecer os estímulos aos quais obedecem para entender as suas respostas. Acontece que as pessoas não são ratinhos, muito menos as de Henry James. Mas o que faz a realizadora? Faz o que pode fazer um realizador e por isso temos de ser algo tolerantes. Pega na história, selecciona momentos importantes e leva-nos a seguir os movimentos das personagens como numa gaiola. Sim, é verdade que já vi melhores filmes baseados em livros. Mas o cinema nunca deixa de implicar uma abordagem superficial da realidade enquanto "superfície colorida" onde se movimentam esses outros objectos coloridos que são as personagens, que muito vemos por fora mas pouco por dentro. Não houvesse literatura e as limitações do cinema seriam relativizadas. Mas a literatura (apesar do Nouveau Roman) resulta precisamente do facto de não sermos ratinhos cujos movimentos podem ser seguidos por uma câmara que desenha uma linha contínua entre o princípio e o fim desse movimento.

Por isso o cinema está hoje para nós como a pintura para a personagem de Middlemarch. Não tem mal nenhum, se tivermos a consciência de estarmos apenas a ver um colorido exterior graças ao registo de de uma câmara, longe, porém, da verdadeira e interior visão oferecida pela pena de um escritor, ou pelo menos de um escritor como Henry James.