18 abril, 2015

O CONTABILISTA COR DE ROSA

Jacques Tati | O Meu Tio [fotograma]

Uma das coisas boas da vida é esta nunca deixar de nos reservar algumas surpresas, sobretudo para uma pessoa como eu. Eu sei que passei a vida inteira a enganar-me, mas nunca tive propriamente uma crise existencial, uma crise filosófica ou uma crise religiosa que me obrigasse a uma profunda revolução interior. Nunca tive uma estrada de Damasco, nunca tive de lutar contra ideologias com o mesmo fervor com que o Quixote lutava contra os moinhos, nunca tive de matar uma parte de mim como condição necessária para fazer nascer uma outra. Enganei-me e desenganei-me, errei, corrigi, para voltar a errar e sempre aceitei isso com saudável espírito falsificacionista: viver não deve consistir em fecharmo-nos dogmaticamente nas nossas crenças mas em descobrir erros, por muito caros que se paguem.

E mostra a experiência que continuo a ter razão. Do mesmo modo que quando penso num mau escritor é em Paulo Coelho ou Murakami que me lembro, se pensava no tipo de homem mais desinteressante ao cima da terra era logo a figura do contabilista que me invadia a consciência. Era assim até hoje como já era assim nos meus 20 ou 30 anos se me pedissem para fazer esse exercício, talvez influenciado por aquela ideia heideggeriana do "homem que calcula" em vez do homem que pensa, que reflecte, que escreve poesia, que vive genuinamente a vida. A ideia que eu tinha do contabilista, e que ficou ainda mais reforçada com esse espantoso romance de David Lodge que é Um Almoço Nunca é de Graça, era mesmo a de um homem cinzento, triste, macambúzio, vazio, rotineiro, fleumático e cuja massa encefálica é esmagadoramente ocupada por tristes e desmaiadas folhas de cálculo.

Uma estupidez, um estereótipo sem pés nem cabeça, reconheço agora. Eis que no mesmo espaço de tempo leio esta e esta extraordinárias notícias. Não vou ser hiperbólico e dizer que se trata da minha Estrada de Damasco no reino da Contabilidade. Mas não consigo deixar de ficar perplexo pelo modo como a minha já longa vida ainda me vai abençoando com a Graça destas surpresas. Um contabilista, afinal, está longe de se poder reduzir a uma entidade cinzenta que atravessa a existência com a mesma insustentável  leveza de um fantasma, de um holograma, de um espírito sem nervos e sangue. Não, um contabilista é humano, tem coração, vísceras, glândulas, e glândulas que brilham, saltam, pulam, vibram, estremecem, dilatam, rebentam. Eu penso nisto e sinto-me como aos 20 anos quando percebi as limitações do marxismo ou como mais tarde quando percebo a estupidez de ser anti-religioso e como tantas outras coisas que pensei para depois deixar de pensar e passar a pensar outras. E enquanto assim for, sinto que vai continuar a valer a pena viver e como é bom ser tão humanamente imperfeito e poder continuar a sê-lo enquanto o coração bater.