14 abril, 2015

O BOM PROFESSOR

Um casal de professores a não pensar em escola

Vejo cada vez mais, e com crescente apreensão, professores angustiados e perdidos no labiríntico problema da sua identidade, professores que depois de tantos anos e ministros, continuam sem saber o que é ser um bom professor, o que se deve esperar de um bom professor. Felizmente, não é preciso muito:

1. Conhecer bem o que ensina.

2. Falar do que ensina como se de uma amante se tratasse.

3. Olhar para os alunos com uma terna mistura de desprezo e arrogância, fazendo-lhes diariamente sentir que não passam de ignorantes, mas tendo ali o professor como guia para, se assim o entenderem, sair da miserável caverna em que se encontram.

4. Trabalhar o menos possível em tudo o que não tenha quer ver com as aulas.

5. Não pensar em escola fora da escola, a escola que fique a falar sozinha com ela própria.

6. Comer bem.

7. Dormir ainda melhor.

8. Pensar que o dever de ensinar não implica usufruir do direito de aprender. Sempre que ouvir falar em "ensino-aprendizagem", conceito que já deve ter escrito e lido tantas vezes quanto os golos de Cristiano Ronaldo, deverá pensar, com serena neutralidade, que pode haver ensino sem haver aprendizagem. Respeitar este ponto aumenta exponencialmente o sucesso do ponto anterior. 

9. Sempre que ouvir falar em "comunidade educativa" não deve puxar logo da pistola pois não é bom para o seu sistema nervoso. Deve antes pensar que, por muito fascinante que seja a Idade Média, o ensino monástico é chão que já deu uvas. Uma escola não é comunidade nenhuma, mas apenas um local onde professores ensinam e alunos aprendem. Depois há os auxiliares que auxiliam e ainda os pais, que são aqueles que devem (ou deviam) estar apenas sossegadinhos em casa a educar os filhos.

10. Não acreditar que Portugal possa vir a ter algum dia um bom ministro da Educação, genuinamente preocupado com a educação e nada mais do que a educação. Nada como um sereno estoicismo greco-romano para enfrentar a trágica inevitabilidade do destino.

11. Quando sair mais um livro inovador na área das ciências da educação, deve pensar que, se Zezé Camarinha escreveu um livro, qualquer pessoa poderá fazê-lo, e depois fazer exactamente o contrário do que é lá sugerido com aquela científica gravitas que serve apenas para atirar areia para os olhos. 

12. Pensar que a ideia de reforma é, antes de mais, um problema teológico que surgiu na Alemanha durante o século XVI, no qual a fé ganha uma importância absolutamente preponderante. A partir disto, pensar sempre que a fé é a última coisa a perder.