12 abril, 2015

O ANIMAL PERFUMADO

Frank Eugene | The Graduating Class, 1913

- Que feio é Mr. Casaubon!
-  Celia, Mr. Casaubon é um dos homens de aspecto mais distinto que alguma vez vi. Parece-me imenso com  o retrato de Locke. Tem os mesmos olhos encovados. [...] É doloroso, Celia, que tu vejas os seres humanos como se fossem apenas animais vestidos, e que sejas incapaz de detectar no rosto dum homem a sua grande alma.
- Mr Casaubon tem uma grande alma? Perguntou Celia, num tom não isento de ingénua malícia.
- Tem, acredito que sim - Disse Dorothea, num tom resoluto. - Tudo o que vejo nele está de acordo com o seu opúsculo sobre a cosmologia bíblica.
[...]
Mr. Casaubon aproximara-se da mesa, trazendo na mão a chávena de chá, e estava a ouvi-los.
- Não devemos perscrutar demasiado as motivações das pessoas- interrompeu ele, no seu tom cadenciado. - Miss Brooke sabe que elas perdem força ao seres expostas, quando o seu aroma se mistura com o ar mais grosseiro. Se queremos que o grão germine, há que mantê-lo às escuras.

George Eliot, Middlemarch



A última vez que me lembro de ter pensado no Eau Sauvage, foi aqui. Mas anteontem aconteceu uma coisa engraçada. Calhou estar a falar com um colega sobre a percepção de certas coisas quando somos crianças e mais tarde adultos, coisas como uma praça que parecia enorme ou sabores já sem o mesmo impacto de outrora. E foi então que me lembrei do Eau Sauvage. Ora, qual não é o meu espanto quando, horas depois, me deparo com esta fantástica notícia. 

Ler uma notícia destas e não ir logo a correr até uma perfumaria para depois tomar um duche de Eau Sauvage, só pode ser mesmo um sinal de velhice. Ainda tive a tentação de pensar que o Eau Sauvage é mesmo a minha cara e que se lixem as diferenças de percepção entre crianças e adultos, e que nada pode superar os bons sabores e cheiros de outrora, mais a espontaneidade das crianças para saber o que é bom, dando uma lição aos sentidos já viciados dos adultos cuja memória não passa de um confuso palimpsesto. Mas não, em vez disso, à minha pobre e alexandrina cabeça, como lhe chamaria Nietzsche com ar de gozo, deu-lhe para pensar.

Um perfume, tal como um frigorífico, um automóvel, um computador, é um produto da civilização, uma pérola aromática criada por um científico e engenhoso processo químico num sofisticado laboratório. Por sua vez, a sua aquisição, a jusante, remete para um complexo processo social e cultural que, no final, visa sobrepor um cheiro artificial, socialmente adoptado ou construído, ao cheiro natural com que fomos dotados à nascença. O perfume transforma-nos, como não desejaria ouvir a personagem de Middlemarch, em animais perfumados. Um animal que vestido nunca chega a esconder, inibir ou dissimular a sua animalidade, a sua roupa jamais anulará o que há nele de mais material, carnal, sensorial ou fisiognómico. Mas no caso do Eau Sauvage, o animal sob umas gotinhas derramadas na pele, não só não desaparece como emerge em todo o seu esplendor o que tem de mais subterrâneo, orgânico, visceral, induzindo no sexo oposto os mais inefáveis sentimentos.

As suas razões terá o puritano senhor Casaubon para, diante de dois exemplares do sexo contrário ao seu, defender que não se deve perscrutar as motivações das pessoas. Claro que não estava a pensar em perfumes. Mas também é verdade que o perfume será apenas, entre muitos outros, um pequeno, embora eloquente, sinal, de que por detrás de um grande homem ou de uma grande mulher estará sempre um grande animal.