17 abril, 2015

IDEIAS SEM ROSTO

Duane Michals | Magritte

Há anos que é de Paulo Coelho que me lembro como exemplo de má literatura. Mais recentemente, elegi Haruki Murakami como membro honorário do clube. No caso deste, com conhecimento de causa pois consegui ler um livro dele inteiro (felizmente, pequeno), e mais um bocadinho de outro, também pequeno, mas que aguentei muito pouco por ser tão mau. Mas passei anos a maldizer Paulo Coelho sem fazer ideia do que escrevia, só porque era moda dizer mal dele ou influenciado pelas horríveis capas dos seus livros. Um dia, porém, fiquei com a consciência tranquila. Estava a dar um teste e vejo um livro dele pousado na carteira de uma aluna, não resistindo a dar uma vista de olhos. Horrorizado, percebi que era ainda muito pior do que havia suposto.

Há dias, calhou apanhar uma revista Lux onde dou com uma crónica de Paulo Coelho. Olho para a parte do texto destacada e qual não é o meu espanto quando leio uma coisa muito parecida com outra que eu já tinha escrito. Dizer que fiquei apreensivo é um eufemismo de pânico, e não é para menos: eu e Paulo Coelho, no mesmo registo, partilhando uma mesma ideia, é assustador. Fiz, entretanto, o que se deve fazer em situações de pânico: pensar. Neste caso, exercício do qual resultaram duas pistas, uma pessimista e outra optimista. 

A primeira consiste na possibilidade de eu estar ao nível de Paulo Coelho sem nunca disso me ter apercebido. Se uma pessoa soubesse que está a vestir uma roupa pirosa, não a vestiria. Ela não se apercebe disso mas os outros apercebem-se. Assim, talvez eu pense e diga coisas tão más como as de Paulo Coelho sem disso nunca me ter apercebido.

A segunda pista, mais simpática, baseia-se no facto de um texto literário ser muito diferente de uma crónica onde se transmite uma ideia. Se um neo-nazi argumentar que é vegetariano por respeito pelos animais, não vou rejeitar a sua ideia só por ser neo-nazi. Se esse mesmo neo-nazi disser que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos, o teorema não vai abaixo só porque há ideias execráveis infectando o seu espaço mental. Do mesmo modo, não é por Paulo Coelho ser um mau escritor que me sinto na obrigação de discordar do que ele pensa. Mesmo nos seus horríveis romances pode dar-se o caso de se encontrarem ideias interessantes, pois uma coisa é o conteúdo, outra, a forma. Se virmos bem, alguns dos melhores romances de todos os tempos partilham os seus temas com telenovelas de 3ª categoria: amor, ciúme, traição, felicidade, desespero, ambição, jogos de poder. O que os distingue não é o tema ou a história mas a forma como se faz. 

Ora, Paulo Coelho pode ser um mau escritor mas uma pessoa com ideias interessantes e com as quais posso concordar. Não estou de modo algum a negar a possibilidade de eu escrever coisas ridículas sem disso me aperceber. Até posso estar neste momento a ser ridículo sem o saber. Sei, todavia, que pensar o mesmo do que ele não deve ser razão me tirar o sono. As ideias não são das pessoas, nós é que somos das ideias.