25 abril, 2015

CRAVOS SILVESTRES


Não consigo evitar uma certa estranheza perante as fotografias do dia 25 de Abril de 1974. Por um lado, são fotografias do meu tempo, lembro-me bem desse dia, do que se passou, onde estive, do que fiz. Mas ver depois todos aqueles carros que já não existem, lojas com marcas que já não existem, roupas e cortes de cabelo ridículos ou polícias com fardas esquecidas, faz-me sentir o mesmo tipo de cisão que sinto perante imagens bem presentes na minha consciência mas de tempos que não foram meus, como um comício nazi em 1932 ou a libertação de Paris em Agosto de 1944, cujas figuras aparecem agora como eidola, fantasmas ou espectros, embora tenham sido outrora pessoas de carne e osso.

Se eu me limitar a pensar no dia 25 de Abril, a memória tende a submeter os factos a simples ideias evocativas. Porém, ao ver as imagens, a evidência física dos factos, tudo se altera. Ao projectar-me nelas, acabo por me ver também como um fantasma, tendo assim uma experiência mental tão ficcional como a que terei se me se quiser ver em Paris em 1944, pois embora esteja a ver o meu tempo é também um tempo que não é meu. Eu vejo-me ali, aquelas ruas são minhas, aqueles carros são meus, aquelas roupas são minhas mas essa parte de mim já não é minha, apesar da parte de mim que ali ficou ser tão real e consistente como esta que agora disso se lembra. É estar vivo e ver-me morto, como no sonho do velho professor nos Morangos SilvestresAs fotografias do 25 de Abril de 1974 não passam assim do equivalente histórico de uma natureza-morta (ou still life, para aproveitar a maior riqueza semântica da palavra inglesa), só que em vez de frutos, flores ou caça, temos pessoas, carros, roupas, lojas, todo um mundo que, estando vivo, prepara a sua própria dissolução nas garras de Cronos que tudo devora.