06 abril, 2015

AS VOZES DO SILÊNCIO


Saiu do salão e começou a vaguear ao acaso, indo até à biblioteca e à galeria dos quadros, onde, no repouso profundo do ambiente, os seus passos despertaram ecos. Nada havia mudado. Isabel reconheceu tudo; tudo estava como antigamente. Dir-se-ia que de ali partira ainda na véspera. Quanto invejou a segurança dessas pinturas preciosas que não se alteram; antes aumentam de valor, ao passo que os possuidores perdem hoje, amanhã, depois, a juventude, a felicidade, a beleza. Henry James, Retrato de uma Senhora, Capítulo LIV

Engraçado dar com este artigo pouco depois deste belo pedaço de prosa que descreve o regresso de Isabel a Gardencourt após vários anos ausente. Uma Isabel desiludida, rendida, erodida, longe da americana livre, autónoma e emancipada de outrora, que agora regressa para se despedir do primo que vai morrer.

Porém, naquela galeria, perante os velhos quadros, sente-se como se tivesse partido na véspera e nada tivesse mudado. Porquê? Os olhos de Isabel ali não são os olhos de Isabel de outros momentos. São olhos que viram coisas que os outros não viram, e estes, por sua vez, outras que os actuais, entretanto, esqueceram. Nunca somos os mesmos quando nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio e a consciência humana tem tanto de volátil como de sólido. O que Isabel sente perante aqueles quadros é um reencontro consigo própria, a posse de uma visão que transcende a espuma que os dias fazem aparecer e logo desaparecer. Ela muda, envelhece, a sua vida transforma-se, mas aqueles quadros ligam-na a si própria, ligam os diferentes elos que a constituem, formando assim uma corrente una e sólida. Graças à segura imutabilidade daqueles quadros eternamente belos que a conduzem ao passado, Isabel consegue, por momentos, esquecer o seu envelhecimento, infelicidade e perda da sua juvenil beleza. 

O que é válido dentro de um registo pessoal, também o é num registo colectivo e histórico. A arte religiosa não é património de qualquer religião ou igreja mas património da humanidade. A história da Europa poderia não ter sido cristã uma vez que o cristianismo foi um acidente histórico, tão acidental como tudo o que é histórico sem excepção. Mas a história da Europa é cristã e foi dentro dela que se criaram os objectos artísticos mais belos, e cuja beleza resiste às modas que a voracidade de Cronos faz rapidamente desaparecer.

Continuar a olhar para o que os outros olharam e continuar a ver a beleza que outros viram, é continuar não só a ser a mesma humanidade de sempre mas o melhor dessa humanidade, resistindo a todas as mudanças que, sendo naturais e desejáveis, precisam de referências eternas como os nossos pés de um chão firme.