02 abril, 2015

AS QUATRO ESTAÇÕES


Hervé Bernard, c. 1980


Liberdade? Se eu pudesse, seria feito de leis como as da natureza e de estar sujeito ao ciclo das estações. Saberia que vou arrefecer porque vem o Outono. Depois, nevar porque é Inverno. Meses depois, aquecer suavemente, florir e verdejar para terminar o ciclo com um Sol escaldante que pediria um bom banho de mar ou a frescura de uma sombra, para então voltar de novo a uma outonal melancolia.

Por comodidade, quando me perguntam qual a minha estação preferida, digo que é o Outono. De facto, gosto muito do Outono e é no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia de chuva. Mas também não é no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia de sol. Por isso não posso verdadeiramente dizer que o Outono seja a minha estação preferida apesar de ser a minha estação preferida. Do que gosto mesmo é das passagens de umas estações para as outras. Mais do que das estações gosto dos seus intervalos. Os intervalos não são estações. São a transmigração das estações num corpo circular que vai nascendo e morrendo com a mesma tranquilidade com que chove e faz sol.

Dizer que se gosta especificamente de uma estação é como gostar da linha horizontal de um electrocardiograma. Gostar dos intervalos das estações é gostar da renovação das estações que se repetem infinitamente para também nós nos podermos repetir infinitamente sem disso podermos escapar.