16 abril, 2015

ARROZ DE ERVILHAS


Alécio de Andrade | No Museu do Louvre, 1970

Ontem resolvi fazer dois hamburgers com arroz de ervilhas para o jantar do meu filho. Eu estava sem fome, não ia jantar, mas, de repente, deu-me uma vontade doida de comer só o arroz. Estava bem refogadinho, cremoso, bem cheiroso e não pude resistir ao seu apelo. Quando o meu companheiro de mesa olha para o meu prato e percebe que o meu jantar iria ser arroz de ervilhas manifesta de imediato a sua surpresa face ao insólito da situação. Acto contínuo, olho para o prato dele, olho para o meu, e acabo eu próprio também achar estranha uma refeição reduzida a arroz de ervilhas. Mas também logo ganho consciência da parvoíce que é achar estranha uma refeição só porque é feita de arroz de ervilhas. 

Se uma pessoa vir alguém a comer dois hamburgers sem mais nada, pode achar que falta qualquer coisa mas não acha insólito. Porquê? Porque a carne é vista como elemento principal da refeição, enquanto o arroz, a massa ou as batatas fritas seriam o (sintomaticamente chamado) acompanhamento. Mas por que não inverter a ordem? Por que não ver o arroz de ervilhas como prato principal e os hamburgers como o acompanhamento que, neste caso, vou dispensar por não ter grande apetite? Mais: se se trata de arroz de ervilhas, isto é, a junção de dois elementos distintos, por que razão não hei-de poder ver aqui uma refeição também com um elemento principal e o seu acompanhamento? O arroz ser o elemento principal e as ervilhas o acompanhamento. E se eu gostar muito, muito, muito, de ervilhas e quiser ver a minha refeição como sendo ervilhas com arroz em vez de arroz de ervilhas? Neste caso, o arroz não será o acompanhamento da carne, mas o acompanhamento do que é visto como um acompanhamento do acompanhamento, ou seja, as ervilhas no arroz. 

O que eu quero dizer é que uma refeição é uma ordem cujas partes permitem diferentes combinações. Não existe uma ordem pré-estabelecida, que possa ser formulada a priori, mas um conjunto de possíveis. Acontece apenas que esses possíveis são organizados e tornados previsíveis em função de certos códigos convencionais,  fazendo com o que era um simples possível passe a ser uma necessidade. O que está a acontecer cada vez mais nas nossas sociedades livres e abertas é a possibilidade de organizar vários jogos de vida, no sentido em que também existem jogos de linguagem ou jogos de refeições. Não se trata apenas de estilos de vida ou de atitudes perante a vida. É mais do que isso, a possibilidade de construir diferentes escalas sem constrangimentos, limitações, culpas ou complexos: hamburger com arroz de ervilhas, arroz de ervilhas sem hamburger, arroz de ervilhas, ervilhas com arroz. Há quem chame a isto crise de valores. Eu chamo-lhe liberdade.