29 abril, 2015

ARDOR MUNDANO


Não pareço filho dos meus pais nem neto do meu avô paterno, todos politicamente activos. Mas creio que o mais intenso e emocionante acto político da minha vida foi ter-me levantado do sofá com mais rapidez quando anunciaram que Mário Soares tinha ganho a Freitas do Amaral. Sei que pareço pouco grego ao falar assim, e nós, europeus, começámos por ser gregos. Não por acaso Péricles chamava idiotai aos que não se interessavam pela política. Pronto, serei um idiota, assumo, e peço desculpa ao meu avô e aos meus pais por este decadente processo de transmissão genética. Mas se Péricles, Platão e Aristóteles eram gregos, menos gregos não foram Epicuro, Zenão ou Diógenes, que defendiam precisamente o contrário. 

Serei então o oposto do que o senhor Chélan, no Vermelho e o Negro, de Stendhal, diz a respeito de Julien Sorel: «O senhor Chélan achou nas suas maneiras um certo ardor mundano, bem diferente do que devia ter um futuro padre». Conhecesse-me o senhor Chélan e diria estar eu muito mais destinado à vida de padre do que à de presidente de uma junta de freguesia ou membro de uma qualquer assembleia que me roubassem o já pouco tempo que tenho para me encontrar com os meus mortos que, ali deitados nas prateleiras, pedem a minha atenção com a mesma veemência com que as crianças pedem colo. 

Nada tenho contra a vida política e sei que alguém tem de a fazer. Os políticos são precisos, como o são os médicos, canalizadores ou produtores de melão. Mas isso não significa que tenhamos todos de ser médicos, canalizadores ou produtores de melão. E nada tenho contra ler jornais todos os dias, ver debates televisivos, acompanhar análises políticas e económicas. Creio mesmo ser útil estar a par do que se passa no mundo, não vá o mundo esfaquear-nos pelas costas, coisa fácil de acontecer. Mas o mundo é o que é e nós somos o que somos. Tal como a intersecção na teoria dos conjuntos, há uma parte do mundo que pertence simultaneamente a mim e à realidade social, mas também nem tudo o que me pertence tem de pertencer à realidade social, e nem tudo o que pertence à realidade social tem de me pertencer. No meu caso, não troco a serenidade da minha lareira apagada pelos ardores mundanos que me enchem de azia.