23 abril, 2015

A PASSAGEM SECRETA



Mete-me alguma impressão ver a azafamada e mundana correria dos escritores a caminho de tanto lançamento, apresentação, entrevista, colóquio, palestra, vernissage, festival, certame, enfim, tanta viagem para mais um encontro de escritores misturados com políticos, académicos, jornalistas. Não, juro que não é inveja minha pelas incandescentes luzes da ribalta. É mesmo uma sensação agorafóbica ao imaginar-me nessa situação, respirando tanto oxigénio mundano. Eu sei que a literatura é uma indústria com a sua própria contabilidade, tendo a escrita um lado oficinal no qual o escritor é cada vez mais um funcionário mergulhado em actividades corporativas. A escrita é a principal mas também um pretexto para justificar todas as outras que, muitas vezes, lhe sobrepõem. Quantos escritores haverá por aí que conhecemos tão bem como políticos, cantores ou actores, alguns deles bastante respeitados, mas dos quais nunca lemos uma linha? 

Não estou a criticar, longe de mim, o rodopio mundano. Se fosse escritor, iria também imolar-me no altar da visibilidade. Mas se eu fosse escritor era nesta cadeira de Peter Handke que gostaria de ficar para me diluir nesta luz verde, coada pela serena espessura de árvores de cuja folhagem, tocada pelo vento, emana uma sonata em registo de adagio ma non troppo. Um jardim secreto, como o de Alice, com uma velha mesa de madeira cheia de maçãs em cima e outras dispersas pelo chão, um jardim desgrenhado como cabelos ao acordar. Não é preciso ser escritor para conhecer este lugar. Eu já lá estive, não sei se em sonhos, se numa vida anterior, se num filme do Tarkovski. Talvez por isso recorde tão bem aquela música, o cheiro, a luz, a temperatura amena, tal como o escravo do Ménon, de Platão, recorda o que nunca aprendera. É um lugar exterior mas ao mesmo interior, onde a serena desordem da paisagem reflecte a inesperada e imprevisível liberdade de um espírito abandonado sobre si próprio.

Para chegar a este locus amoenus não é preciso chamar-se Virgílio ou Camões. Pode ser mesmo uma criança, como a pequena Amandine do conto de Michel Tournier, a menina que habituada à harmonia burguesa do seu jardim doméstico descobre um outro jardim misterioso para lá do muro. Não é preciso chamar-se Camões ou Virgílio mas isso não significa que a sua porta não seja estreita. Não deixa de ser insólito ter por companhia silenciosas maçãs sobre uma velha mesa de madeira num palco invisível. Mas é neste caos genésico que o escritor pensa o seu próprio pensamento antes da criação de um mundo que só na sua cabeça existe. Um mundo onde irão entrar os seus leitores, sabendo, porém, que naquela cadeira perante as maçãs, apenas ele tem lugar e que é lá que gosta de estar.