15 abril, 2015

A OVELHA

August Sander

Estes jovens alemães estão aqui muito bem, conscientes da solene importância do fotográfico momento. Ainda assim apresentam-se discretos, uma contenção que tanto podemos observar no subtil sorriso do rapaz como nas tímidas mãos da rapariga. Mas veja-se a ovelha. A pose da ovelha. Fosse eu um marciano acabado de chegar à Terra e visse esta fotografia sem saber o que são seres humanos, ovelhas, cães, gatos, cavalos, tartarugas ou melros, iria pensar que, pelo seu ar empertigado, das três figuras, seria a ovelha a mais consciente do seu papel ali e com uma mais forte convicção da sua importância. Ora, como sabemos, não é. Apesar da pose, do ar solene com que se exibe para a eternidade, a ovelha não faz a menor ideia do que está ali a fazer.
Conheço muitas pessoas que são como esta ovelha. Andam com ar empertigado, sentem-se importantes porque são isto ou aquilo, julgam muitas vezes que o mundo gira em torno delas. Mas, no fundo, como esta ovelha, nascem, vivem e morrem sem fazerem a menor ideia do que andaram por cá a fazer.