30 abril, 2015

A DERROTA DOS PORCOS

Yongzhi Chu | Macaco Treinando num Circo, 1º prémio World Press Photo, categoria natureza, 2015

«Quando educamos a nossa própria consciência, ela beija-nos quando nos morde». Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, §98

Claro que o nosso olhar é de imediato sugado pelo inocente terror do macaquinho. Facilmente nos projectamos num animal tão parecido connosco, com um olhar e um medo tão humanos, ainda para mais encostado a uma bicicleta. Aquele macaco, tão humano, sofre como sofreria um filho nosso na mesma situação. Sorte a dele que, graças aos sortilégios do processo evolutivo, merece o nosso dó e compaixão. No caso de um cão ou de um gato, embora a morfologia seja muito diferente da nossa, também nos choca vê-los na mesma situação, pois são animais aos quais nos vinculamos com afecto.

Ora, é este vínculo pessoal e afectivo que nos leva a não tolerar o sofrimento de um cão ou de um gato ou a sermos incapazes de os comer. Porém, que culpa tem um porco de não ter sido bafejado pelos sortilégios da evolução? O porco não é querido e fofinho como um cão ou um gato, mas tem emoções como eles, as mesmas sensações de prazer e de dor. Como um ser humano preto e outro branco: diferentes por fora mas iguais por dentro. Os porcos não têm nome, são fisicamente incompatíveis com o nosso sentido de equilíbrio estético, não dormem connosco, não levamos a passear à rua e grunhem horrivelmente em vez de miar ou ladrar. Mas têm uma qualidade, que não nos cansamos de louvar: uma saborosa carne que nos dá um prazer do qual não desejamos prescindir. E quem diz o porco, diz a vaca. E diz o pato, o frango, o peru, o coelho ou a lebre, carnes até mais saudáveis, dizem os médicos e nutricionistas. Calhou assim na lotaria dos nossos prazeres. Para perceber como é arbitrária essa lotaria, basta pensar como vai rapidamente do céu ao inferno um turco que é informado de estar a comer carne de porco sem saber, ou um português que se delicia com um suculento coelho à caçador mas que descobre estar a comer um gato. Sorte a dos gatos não serem coelhos, azar do coelhos não serem gatos, animais que esfolados dentro de um tacho se confundem. 

Podemos fazer manifestações e abaixo assinados contra as touradas, diabolizar o toureiro que anda por ali a fazer umas maldades ao pobrezinho, exibir perante a mão esquerda toda a sua humanista sensibilidade da mão direita. Mas quem resiste a um belo entrecosto bem temperado, a um ensopado de borrego com pão torrado, a um arroz de pato com umas rodelas de chouriço, a uma perna de peru assada no forno, a uma massa à bolonhesa? Isso é diferente. Não só porque não são cães, gatos ou macaquinhos mas porque já nem animais são. A rodela de chouriço é uma abstracção. Como é uma abstracção a carne picada sobre a massa, refogadinha com cebola. O próprio pernil de porco não é um porco mas um pedaço de carne bem cheirosa que nos dá imenso prazer. 

A nossa consciência torna abstracto tudo o que lhe interessa que se torne abstracto, torna sensível tudo o que lhe interessa que seja sensível. Mesmo este macaquinho que aqui nos impressiona, gostamos de ver no dia do espectáculo a alegrar as crianças com as suas macacadas à custa de muito treino e disciplina, como gostamos de ver os leões, os elefantes e os ursos, que passam a sua vida em jaulas em nome de uma tarde bem passada em família. O que é preciso é não ver. Desde que não vejamos, não há problema, o que não acontece com o touro na arena a ser pegado pelos forcados e a levar umas farpadas. Até podemos sentir horror pela forma como os animais são produzidos e transportados antes de chegarem ao nosso prato a fumegar para deixar a boca com água como o lobo dos desenhos animados a imaginar o franguinho. Mas, depois, os fins, os nossos fins justificam os meios. Isto é assim porque o nosso amor e carinho pelos cães, gatos ou macacos é um amor por nós próprios. Um amor e carinho pelos animais que elegemos para dar amor e carinho, sendo os maus tratos sobre eles um choque para nós pois é maltratar os animais que nós queremos que sejam alvo de amor e carinho, animais a quem nos sentimos ligados como a um ser humano. 

Eu gosto de touradas mas aceito com toda a naturalidade que se critiquem. Posso não concordar com as críticas mas aceito-as na condição de quem as critica recusar todo o tipo de carne apetitosa no prato, recusar os circos, recusar os jardins zoológicos. Se assim for, podemos então conversar. Se não for, podem continuar a beijar a consciência enquanto a mordem. Ou beijar a consciência enquanto vão mordendo um belo pedaço de entrecosto do que foi outrora um animal senciente, produzido e transportado em condições deploráveis.