21 abril, 2015

A CANÇÃO DA NOITE



Corria o ano de 1910. Perturbado com um affaire da sua mulher, o compositor Gustav Mahler pede ajuda a Freud, que não conhecia, na cidade holandesa de Leiden, onde por acaso se encontravam. Só que em vez de uma simples depressão, o psicanalista descobre uma neurose estrutural, que percebe depois estar na base de aspectos marcantes da sua música, para deleite de tantos melómanos, o que até nem era o caso do clínico vienense, pouco dado aos prazeres musicais. Explica-se assim a necessidade sentida por Freud de analisar com dois discípulos o que fazer com o famoso doente: curá-lo seria bom para o homem mas péssimo para a criatividade do compositor. 

Compreende-se o dilema moral, mas será mesmo assim? O que fosse péssimo para o compositor não o seria também para o homem? O que seria de Gustav sem a criatividade do compositor Mahler? Num homem como Mahler, o eu empírico, com os seus desejos, necessidades, objectivos, está refém de um outro eu, de uma outra voz, de uma outra consciência vinda das sombras, apoderando-se da sua consciência mais terrena. Como um daimon socrático mas de natureza mefistofélica, pois em vez de o levar para o luminoso campo da Filosofia, cultivada pelo exercício da razão, rapta-o para as obscuras vielas da loucura criativa. Esse mesmo daimon que diz a Adrian Leverkühn, a personagem principal do Doutor Fausto, de Thomas Mann «Só me consegues ver porque estás louco». Gustav foi um homem perturbado, difícil, com problemas que nunca foi capaz de superar. Mas foi o que fez dele Gustav Mahler. 

Todos os que gostam da sua música devem estar agradecidos a esse maldito daimon que nunca o abandonou, sem que isso faça de nós vampiros que, com finos e afiados ouvidos, chupam o sangue da sua anémica vítima. Na vida preferimos os males menores aos males maiores. Neste caso, porém, ter estrangulado esse daimon no divã do consultório teria impedido um Mahler maior. Mas creio que seria o próprio Gustav o último a desejar tornar-se num Mahler menor.