26 abril, 2015

A ARTE DE DESEJAR

David Octavius Hill | 1855

Para pensar na felicidade é útil regressar à classificação dos desejos feita por um filósofo grego chamado Epicuro. Ele fala em três tipos de desejos: os que são naturais e necessários, por exemplo, o desejo de comer e de beber; os que são naturais mas não são necessários; finalmente, os que nem são naturais nem necessários, como desejar pintar o cabelo de roxo ou ter um Mercedes. Não me esqueci de dar um exemplo dos segundos. Sendo os mais complexos, vou dedicar-lhes uma atenção especial.

Em rigor, se retirarmos o que há de mais básico no ser humano, nada é natural nem necessário. Por exemplo, ler um romance de Tolstoi ou ver um filme dos Monty Phyton não é natural e necessário como comer ou dormir. Mas há pessoas para quem, em virtude da sua identidade, ler um livro ou ver um filme se torna tão natural como um cão enterrar um osso. Pode parecer um desejo artificial, mas ser humano, ao contrário do animal, é também transformar o artificial em natural. Acontece haver pessoas que não gostam de ler livros, preferindo treinar karaté, pescar ou ver futebol. Não tem nada mal pois nem toda a gente tem de gostar de ler livros. E se para quem gosta de ler livros será doloroso não satisfazer o seu desejo, também para outras pessoas o será não ir à pesca, praticar karaté ou ver futebol. Porque embora nada disto seja natural, elas tornaram-no natural, ainda que não necessário.

Significa isto que tudo se torna natural só por o desejarmos? Não. Por isso cada um tem procurar dentro de si a resposta para as seguintes questões: o que é mesmo importante para mim? O que é que eu quero como sendo natural para mim? De acordo com a minha personalidade, a minha identidade, a minha natureza individual, que tipo de desejos não posso deixar de cumprir, sob pena de me tornar infeliz? Irei dar uma ajuda através do seguinte exercício. Deus aparece à nossa frente, dizendo que vamos morrer no dia seguinte. Ficamos em pânico e imploramos que não nos deixe morrer já. Deus diz então que nos poupa a vida mas na condição de ficarmos reduzidos a satisfazer apenas seis desejos para além das necessidades básicas. Nada mais podemos desejar sob pena de, logo a seguir, morrermos fulminados com um ataque cardíaco. Ou seja, temos a liberdade de desejar o que acreditamos ser o que nos faz verdadeiramente felizes, deitando fora o que não representa qualquer dano para a nossa felicidade. Agora, é só pegar num lápis e numa folha de papel, fazer o exercício e ver então o que devemos verdadeiramente desejar para sermos felizes. Talvez seja mais fácil do que parece.