01 abril, 2015

2 DE ABRIL


Mimmo Jodice | Alba Fucens, 2008

Olho para a janela, vejo sol, e digo "Está sol em Torres Novas". Mas se olhar amanhã e vir chuva, já direi "Está a chover em Torres Novas". Sendo assim, estou a dizer duas coisas objectivamente verdadeiras e estaria objectivamente a mentir se dissesse o contrário. Mas o facto de serem objectivamente verdadeiras ou falsas não significa serem necessariamente verdadeiras como "Nenhum solteiro é casado" ou necessariamente falsas como "Há solteiros casados". São antes contingentemente verdadeiras ou falsas. Os juízos "Está sol em Torres Novas" e "Está a chover em Torres Novas" são verdadeiros ou falsos em função de uma realidade que não é necessária mas contingente. Daí haver, com a maior naturalidade do mundo, verdades objectivas que se tornam objectivamente falsas e falsidades objectivas que se tornam objectivamente verdadeiras. 

Imaginemos agora que um neurologista sádico me faz uma lobotomia e passo apenas a acreditar e dizer "Está um sol radioso em Torres Novas". Imaginemos outra pessoa a quem também fizeram uma lobotomia mas que, ao contrário de mim, só é capaz de acreditar e de dizer "Está a chover em Torres Novas". Acreditam no que conseguem acreditar, e o que faz com que digam verdades ou falsidades não é a objectividade da sua crença mas a objectividade de factos contingentes que em nada dependem dessa crença. As suas verdades e falsidades, como um relógio parado que está certo duas vezes por dia, são meramente aleatórias e contingentes, estando completamente reféns do seu confronto com os dados da realidade que se apresentam sempre e necessariamente contingentes.

Claro que há uma enorme diferença entre acreditar numa coisa falsa e mentir. Se eu acreditar que neste momento está sol em Baku e disser "Está sol em Baku", apesar de chover, não estou a mentir. Mentir é saber a verdade e dizer o seu contrário. A ironia de tudo isto é pensar como fora do território da lógica e da matemática, ou seja, em praticamente tudo, as nossas unilaterais e lobotomizadas verdades e falsidades, ditas como se tivéssemos aquelas palas laterais colocadas nos olhos dos cavalos, serão sempre vencidas pelo peso esmagador de uma realidade contingente.