05 março, 2015

VÉU DA INCONSCIÊNCIA

Malevich | Quadrado Preto, 1915

Foi por mero acaso que conheci muitas das coisas de que mais gosto. Entrar um dia numa livraria e tropeçar num livro que se tornou num dos livros da minha vida. Calhar em conversa ouvir falar de um filme que depois me marcou indelevelmente. Passar pela sala de um museu onde fui dar com um quadro de um pintor em cujo mundo entrei e nunca mais me largou. Ou aquela sonata para piano apanhada na Antena 2 naqueles dez minutinhos em que foi preciso ir de carro a qualquer lado. E nesse infinito labirinto que é a Internet, as conjugações de acasos que nos levam a descobrir tudo e mais alguma coisa são cada vez mais marcantes.

É assustador pensar, depois de conhecer o que mais gostamos, como foi possível viver tanto tempo sem conhecer o que depois de conhecermos consideramos imperdoável não conhecer. Sobretudo se pensarmos que o que não conhecemos é infinitamente maior do que conhecemos, e dentro desse mundo quase infinito de desconhecimento estão muitas das coisas que consideraríamos imperdoável não conhecer se as viéssemos a conhecer.

Só que é impossível lamentar não conhecermos o que não conhecemos mas que, se conhecêssemos, consideraríamos imperdoável não conhecermos, graças a uma redentora inconsciência que, por não nos deixar saber que existem, nos protege com as unhas e dentes da doce ignorância.

Aproveitemos então a redentora consciência do que conhecemos mas também a redentora inconsciência do que não conhecemos, graças a esse véu da inconsciência graças ao qual conseguimos não ter qualquer relação com aquilo cujo desconhecimento seria terrível se soubéssemos que existem.