17 março, 2015

VA PENSIERO

Duane Michals | Magritte

Se há coisa com que embirro é com erros ortográficos. Hoje, estava a dar teste quando um aluno se vira para mim e, com ar malandreco, me avisa que há um erro ortográfico no enunciado. Entrei em pânico. Qual era então o erro? Em vez de ter escrito "perspetiva", escrevi "perspectiva". O aluno teve toda a razão, dei um erro ortográfico e culpado me confessei. 
Mas não deixa de valer a pena constatar um fenómeno engraçado: com o miserável acordo ortográfico que uma seita de iluminados nos impôs, como que por milagre, quem não sabia escrever, passou a saber escrever, quem escrevia correctamente, passou a dar erros. Tal acontece uma vez que muitos dos erros dados pelos alunos tinham que ver precisamente com o que o acordo veio alterar. Em suma, quem agora sabe, sabe, porque não sabia, quem agora não sabe, não sabe, porque sabia. Sabe-se, por não se saber, não se sabe, por saber.
Para além de engraçado, mostra como, politicamente, através de um trabalho laboratorial de engenharia linguística, passar da ignorância da caverna para a luz da sabedoria sem os próprios ignorantes terem disso consciência, o que antes não acontecia, pois quem não sabia escrever sabia que não sabia. Agora, o aluno não sabe escrever mas uma subtil manobra de engenharia resolveu-lhe facilmente o problema.
Mais interessante ainda é aplicar isto a outro tipo de fenómenos históricos nos quais o poder dos mais fracos anula o poder dos mais fortes, tornando-se eles mesmo os fortes, ainda que sem qualquer tipo de mérito. Não era mais ou menos isto que Nietzsche queria dizer com a moral dos escravos?