11 março, 2015

TERRA E ÁGUA

Ann Mansolino


"Terra e água é tudo aquilo que existe e cresceXenófanes (frg. 29 Diels-Kranz)


Implacável, a cosmogónica simplicidade dos gregos, esta maneira quase infantil de explicar as coisas mais complexas do mundo e da vida. Sem desvios, excessos, gorduras conceptuais, como crianças que não tiveram ainda tempo para amadurecer racionalmente, ficando assim reduzidos a um nível primário do pensamento e do discurso.

Na sua arcaica inconsciência conseguiram o que Beckett diz desejar para si, numa carta a Alex Kaun, escrita em 1937: «Na verdade, tornou‑se‑me cada vez mais difícil, mesmo insensato, escrever num inglês normal. E cada vez mais a minha linguagem me aparece como um véu que tem de ser arrancado para se aceder às coisas (ou ao Nada) por detrás dele. Gramática e estilo. A mim parece‑me que se tornaram tão irrelevantes como um fato de banho vitoriano ou a imperturbabilidade de um verdadeiro cavalheiro. Uma máscara. Tenhamos a esperança de que virá o tempo, que graças a Deus já chegou em alguns círculos, em que a linguagem é mais eficientemente usada quando mal usada. […] Cavar nela um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por detrás – seja isso alguma coisa ou nada – comece a emergir. Não consigo imaginar hoje um objectivo mais elevado para um escritor»

Lê-se isto e percebe-se o modo tão arcaicamente grego mas também tão literariamente moderno como Xenófanes revela a facilidade com que tudo emerge do nada, mas também a facilidade com que tudo se desfaz, de volta ao nada.