03 março, 2015

TALVEZ PODER

Francis Bacon | Estudo para um Retrato, 1953


Claro que uma pessoa lê uma notícia como esta e não consegue acreditar. O melhor, porém, é acreditar e habituar-se a acreditar. A única coisa que pode aqui surpreender é a lata com que se assume a relação de poder face à vítima.

Mas se virmos bem, ainda que não explicitamente assumido, é isto que se passa na cabeça de qualquer violador, mas também na cabeça de quem assalta uma pessoa na rua ou lhe entra em casa para lhe roubar os bens, na cabeça do marido ou ex-namorado que agride ou mata a mulher, na cabeça do terrorista que mata dezenas ou centenas de pessoas num atentado. 

Se os leões falassem e lhes perguntássemos o que pensam, quando lhes dá a fome, sobre o que deveriam fazer as gazelas, o que iriam responder? Que a gazela deveria naturalmente deixar-se comer. Resistir ou fugir é apenas uma perda de tempo e adiar o inevitável. Trata-se de uma relação de poder e nada mais natural do que a obrigação de ambos aceitarem essa relação, quase como se de um contrato se tratasse. O assaltante tem uma faca ou uma pistola na mão? O poder é dele, a vítima só tem de ficar quietinha e caladinha e passar a carteira. O homem recusa que a mulher ou a namorada o deixe? Ela só tem de ficar caladinha e sossegadinha e satisfazer o desejo de posse dele. Não quer? Então só tem de ficar caladinha e sossegadinha enquanto é esmurrada, pontapeada ou esfaqueada.

São situações que roçam o patológico, o desequilíbrio, o desvario mental. Porém, se pensarmos bem, o que se passa com o político que mente descaradamente às pessoas? O que se passa com o político que corrompe, lesando gravemente o seu país? O que se passa com o banqueiro que arruína o seu banco, que prejudica gravemente a economia do seu país, assim como os grandes e pequenos investidores que confiaram no seu banco? O que se passa com advogados manhosos mas cheios de glamour, que usam a própria lei para a contornar e poder assim ilibar criminosos? O que se passa com o empresário que enriquece mas faz tudo o que pode para lesar os interesses dos trabalhadores cuja força de trabalho contribui para o seu enriquecimento? Ou o superior hierárquico que se serve do seu lugar para amesquinhar os seus subordinados?

Claro que são situações diferentes mas a lógica é a mesma: relação de poder. Nós somos mais importantes do que vocês, mais espertos do que vocês, mais ambiciosos do que vocês, temos mais necessidades do que vocês, logo, temos o direito de fazer o que queremos fazer. Fazemos porque queremos e porque podemos. Se podemos, fazemos. Porque nós somos nós e vocês são vocês. E como vocês são vocês, os enganados, os roubados, os prejudicados, os humilhados, como inocentes gazelas que são, o que têm de fazer, como uma jovem indiana violada e assassinada por um perigoso e abjecto tarado, é ficarem caladinhos e sossegadinhos, e permitirem que continuemos a fazê-lo, como se de um contrato entre duas partes se tratasse.

A alma humana é mais homogénea do que pode parecer à primeira vista.