25 março, 2015

SILÊNCIO QUE SE VAI LER POESIA

André Kertész | Série On Reading

Estive hoje a ouvir, na Antena 2, poesia de Herberto Helder dita pelo próprio. Para muitas pessoas ouvir dizer poesia, e ainda mais se for pelo próprio poeta, enriquece a experiência do poema. Para mim, todavia, é um exercício desconfortável que em vez de me levar para dentro do poema (ou o poema para dentro de mim), anula parte do seu impacto, ao contrário do que acontece com uma leitura silenciosa ou simples invocação mental do poema.

A linguagem poética é a que mais se afasta dos mecanismos pragmáticos ou funcionais da linguagem, da sua "trivialidade quotidiana", como diria Heidegger. A linguagem poética brota do ponto mais interior da alma e quanto mais materializada for mais se afasta da sua origem. Pôr as palavras em contacto com o ar, palavras como pedra, árvore, sol, animal, mão, leva a um processo de oxidação que lhes faz perder toda a sua imaterial frescura original. Por muito bonitos que sejam o ritmo, a voz ou a dicção, dizer uma palavra é acrescentar-lhe um elemento que não faz parte da sua pureza semântica nos confins da interioridade, exilando o poema num mundo que não é o seu.

Claro que não é possível separar a génese da poesia e parte da sua história, da sua oralidade. Basta pensar em textos bíblicos, nos poemas homéricos, na poesia trovadoresca. Ainda hoje há poesia que, pelo ritmo, a rima ou o motivo, implora para ser dita. Sou o primeiro a admitir o muito que ganham poemas como "A Procissão", com a voz de João Villaret ou o "Manifesto Anti-Dantas", com a de Mário Viegas. Mas isso não permite pensar numa essência oral da poesia, uma marca inscrita no seu código genético. Há uma essência da dança? Sim, há. Mas dançar hoje numa discoteca nada tem que ver com uma dança ritual arcaica, uma dança camponesa de um quadro de Bruegel ou dançar num salão do século XIX.

A poesia contemporânea está muito longe das motivações religiosas e sociais que fazem parte da sua história, aliás, na mesma linha da arquitectura, música ou pintura. Ouvir hoje, sozinho, no recato do lar, um Requiem nada tem que ver com o contexto em que foi composto. A experiência de ver hoje um quadro religioso do século XVIII num museu, entre centenas de outros quadros, nada tem que ver com a experiência da sua visão original.

Talvez isto se deva ao movimento romântico dos séculos XVIII e XIX que centrou cada vez mais a arte, tanto no plano da criação como no plano da recepção, numa experiência individual. Mas também, em termos mais vastos, numa crescente individualização da própria sociedade, cada vez menos comunitária. Seja lá como for, perca eu ou ganhe, é esta a minha experiência da poesia. Só na luminosa escuridão da minha alma é possível conseguir ouvi-la.