24 março, 2015

PRESENTE ENVENENADO




Robert Capa | Tour de France, 1939


Nós, ao contrário dos animais, não vivemos o presente em estado puro. O presente, sendo o que está mais perto dos nossos olhos, é um simples ponto de passagem entre um passado que já não é mas sabemos ter sido, e um futuro que ainda não é mas julgamos saber. Sabemos o que fomos e fizemos, o que queremos ser e fazer. Daí precisarmos tanto da solidez do passado como da solidez do futuro para dar densidade ao presente, evitando que este se desfaça em minúsculos e gasosos instantes. O verdadeiro será sempre o todo e é nesse todo que procuramos todas as justificações, todas as explicações, todos os sentidos, evitando assim que o presente, enquanto matéria volátil e fugaz, se desfaça permanentemente diante dos nossos olhos. 

Não sei se os animais ou as crianças serão mais felizes, apenas mergulhadas no presente. Provavelmente serão. Mas o ser humano, sendo presenteado com a sua inteligência, a sua racionalidade e a sua consciência de si, não foi feito para a inocente e pueril felicidade dos animais e das crianças. Fomos expulsos do paraíso e é longe do paraíso que temos de aprender a viver.