27 março, 2015

O SOPRO DE DEUS


Manuel Alvarez Bravo, 1920

Lá para o meio de Amores Perros, diz uma personagem a outra: ”Se queres pôr Deus a rir, conta-lhe os teus projectos”. A frase, que tem tanto de irónico como de trágico, desarma qualquer um, mais parecendo um espelho onde observamos a nossa finitude.

Quando projectamos coisas, nunca pensamos no acidente que nos espera a meio de uma viagem, no desemprego que surge de repente, na décima que faltou para termos entrado no curso desejado, no exame médico que revela o que não queríamos ouvir. Do mesmo modo, mas em sentido contrário, nunca poderíamos imaginar que foi graças a termos sido despedidos de um emprego que, meses depois, encontrámos um rumo certo para a nossa vida, que foi por não termos entrado no curso que escolhemos, por uma décima, que fomos obrigados a escolher outro, tendo aí conhecido o homem ou mulher da nossa vida, ou que foi por termos vencido uma doença que a vida passou a ter outro sentido.

Deus tanto escreve direito por linhas tortas como torto por linhas direitas. E, pelo meio, andam os nossos projectos como folha de jornal rodopiando pelo ar em dia de grande ventania. Deus é um brincalhão mas o seu sopro merece ser levado a sério.