13 março, 2015

O REGRESSO DA ESCRAVA TRÁCIA



Samuel Beckett é bastante fotogénico, uma fotogenia que resulta do seu habitual ar triste, distante, amargurado. Normalmente, associa-se esse seu ar ao absurdo, vazio, incomunicabilidade, non sense, do seu teatro. Lêem-se as suas peças e, zás, eis explicada a sua expressão de alguém que vive neste mundo como um exilado num país estranho e distante. Daí eu ter de relevar esta fotografia de um Beckett que ri. 

E pergunto: não será esta a verdadeira expressão de Beckett, a que melhor reflecte o seu teatro? Pois como reagiu a escrava trácia quando viu Tales de Mileto a cair no buraco? Qual a normal reacção de uma pessoa que vê alguém escorregar numa casca de banana? Ou ver alguém engasgar-se? Ou ver duas pessoas de diferentes países, tentando, atrapalhadas, comunicar ideias profundas através de gestos e uma linguagem infantil? Ou ver alguém às apalpadelas numa sala às escuras? Rir, rir, rir. E quanto mais absurdo for, mais vontade temos de rir. O que aquele homem se deve ter divertido a escrever as suas peças.