08 março, 2015

O INTERNO FEMININO

Katarina Gaenssler | Série Sixtina, 2012

«É melhor» pensou, «estar vestida de ignorância e pobreza, que são os obscuros ornamentos do sexo feminino; é melhor deixar a outros o governo e a disciplina do mundo; é melhor estar livre da ambição marcial, do amor ao poder e de todos os outros desejos varonis, desde que se possam fruir em toda a sua plenitude os mais sublimes arrebatamentos do espírito humano, que são» - disse em voz alta, como era seu costume quando estava profundamente comovida- «contemplação, solidão, amor. Graças a Deus que sou mulher!, gritou». Virginia Woolf, Orlando


Não gostamos de escândalos mas a verdade é que parte da nossa identidade cultural nasceu de um enorme escândalo: um deus pregado a uma cruz e humilhado pelo riso do povo estúpido e desprezível. Como escandaloso foi mandar amar os seus inimigos, desrespeitar a lei ou desprezar os bens materiais. Ir contra o senso comum não é tarefa fácil e o escândalo rapidamente se fez sentir.

Quando Orlando dá graças por se tornar mulher após ter sido homem durante séculos, está num registo escandaloso. O livro foi escrito num tempo em que ser mulher representava o oposto do que era socialmente mais valorizado: a política, o poder, a guerra, os negócios. Uma mulher, pelo contrário, construía a sua identidade com base em valores que, apesar de dignos, seriam considerados menores: a casa, a família, o piano, a leitura, a pequena intriga ou, num plano esteticamente superior, uma suave melancolia, resultante de um ócio cultivado nas tranquilas margens do negócio. Ao gostar de se tornar mulher, Orlando inverte estes valores. Enquanto os homens se entretêm com os divertissements do mundo, as mulheres, pelo contrário, repousam tranquilamente numa redoma de «contemplação, solidão e amor», desejando e valorizando, activamente, essa redoma.

Eu também dou graças mas, no meu caso, por ser homem. E quanto mais gostar de o ser mais poderei gostar do eterno feminino. Mulher seria a última coisa que gostaria de ser mas gosto de que ser mulher seja a primeira coisa que uma mulher goste de ser, sentindo o orgulho pela diferença e que, mais do que obcecada por imitar o mundo dos homens, beneficie das belas diferenças do seu sexo.

Claro que as mulheres podem e devem fazer tudo o que os homem fazem, e não ficarem, como no passado, exiladas num limbo de «contemplação, solidão e amor». Claro que devem ter as mesmas oportunidades e usufruírem dos mesmos direitos, incluindo os remuneratórios. É tão óbvio que nem se deveria discutir. Porém, como homem, continuarei a gostar da ideia de que ser mulher deverá sê-lo com cabeça, coração e estômago de mulher, não com cabeça, coração e estômago de homem, sendo diferente no que for tornado possível pela mais bela e deliciosa das desigualdades.