12 março, 2015

O GRANDE SILÊNCIO


Eu gosto muito de ouvir música mas também gosto muito de não ouvir música. Gostar muito de não ouvir música não é o mesmo que não me importar de não ouvir música ou de gostar de fazer uma coisa que implique não ouvir música. Um bom banho de mar, dar um passeio no campo, conversar ou comer um cozido à portuguesa em boa companhia, são situações em que é suposto não ouvir música mas que não anulam o desejo de ouvir música. Neste caso, não se ouve, não por não se querer mas porque não é preciso. Outra coisa, porém, é rejeitar ouvir música, mesmo havendo a possibilidade de a ouvir.

O compositor Toru Takemitsu disse que como seres humanos que somos não podemos escapar ao silêncio da morte. Daí ter procurado, durante a sua vida, sons fortes que protestassem contra o silêncio. A música será assim, na sua essência, um protesto contra o silêncio. Ora, vindas de um músico, não surpreendem estas palavras. Talvez qualquer compositor assinasse por baixo. 

Mas há um silêncio aquém da morte que não precisa de música para o contrariar. Direi mesmo que a própria música, por muito perfeita ou sublime que seja, não deverá perturbá-lo. O silêncio da vida nada tem que ver com a morte pois na morte nem sequer há silêncio, uma vez que não há ninguém para o ouvir. Se ouvimos é porque estamos vivos e se estamos vivos não podemos ouvir o silêncio da morte. Se estamos mortos também não o podemos ouvir pois os mortos não ouvem. 

O silêncio da morte é um silêncio imaginado por vivos. Já o silêncio da vida é um silêncio apenas possível de ser ouvido enquanto estivermos vivos. Por isso não devemos desperdiçá-lo pois não iremos cá estar sempre para o ouvir. Como claramente percebemos em The Death, o derradeiro filme de John Huston, a música pode distrair-nos da morte. Não pode é estar sempre a distrair-nos da vida. O compositor japonês procurava sons fortes na sua música. Fortes, sempre que necessário, também deverão ser os silêncios.