29 março, 2015

O FAETONTE DO AIRBUS 320


Schiller, esse mesmo, o autor da Ode à Alegria da 9ª Sinfonia de Beethoven, enaltece o seu herói Karl Moor que, revoltado, destrói tudo à sua volta. O seu impetuoso temperamento é visto pelo escritor romântico como expressão da sua liberdade e nobreza, a nobreza de um espírito indomável, solitário, irredutível às exigências sociais, elevando a desenfreada liberdade do indivíduo acima de tudo e de todos. Schiller compara a liberdade do seu herói com a liberdade de Faetonte que, no carro do Sol, conduziu os cavalos para a sua perdição. Morre, mas morre livremente e não como um amanuense, um militar, uma marioneta manipulada por invisíveis fios morais, sociais ou políticos. Morre, mas morre epicamente a conduzir os seus cavalos.

Talvez se explique o meu interesse pelo Sturm und Drang romântico por causa de um algo mórbido interesse pelos aspectos mais sórdidos da alma humana. A "apoteose da vontade romântica", como lhe chama Isaiah Berlin, tem tanto de radical como de estupidamente infantil. Faetonte conduziu livremente o seu carro, Karl Moor destruiu livremente o mundo à sua volta. Ambos uns brincalhões, matando com a sua liberdade, a liberdade de todos os outros.