09 março, 2015

O ESTRONDO


Francesca Woodman | s/t, 1975-80

Acordei a meio da noite com um valente estrondo. Percebi que tinha caído alguma coisa. Mas habituado que estou a ouvir cair da mesinha de cabeceira um ou dois livros, o telemóvel, os óculos, a base do portátil, não liguei e voltei a pregar olho.

De manhã, ao passar pela sala, vou dar com um cenário dantesco: montes de livros, cd's, dvd's, folhas e folhas e folhas de papel, papelinhos, objectos vários, tudo ao monte e sem fé em Deus, espalhados por um chão entretanto transformado em instalação num museu de arte contemporânea. Há anos empilhados num equilíbrio instável, cederam finalmente ao tirânico poder da gravidade, embora com o contributo do meu incurável sentido de desarrumação e displicência doméstica. Completamente desolador, dar com todo aquele caos logo depois de ter aberto a janela do quarto para receber a gloriosa aurora de róseos dedos.

Mas o que tem de ser tem muita força e, horas depois, e graças a um árduo trabalho de mentalização, lá fui para o chão apanhar toda aquela tralha maldita enquanto rogava pragas ao destino. Eis senão quando, de joelhos, penitenciado, vergado ao peso do destino, dou com um papel há muito perdido e que já tinha perdido a esperança de encontrar, que vem finalmente ter às minhas mãos.