16 março, 2015

O CRISTO AMARELO



Eis o que parece ser uma visão puerilizada ou ingénua da atroz crucificação de Cristo: pregado na cruz mas com a expressão serena de um bebé que dorme depois de amamentado, rodeado por três mulheres que ali estão como se estivessem a bordar ou descascar ervilhas, enquanto um homem trabalha, indiferente ao motivo principal. Não há emoções conturbadas, rostos que choram, dor lancinante, como é habitual sempre que o tema é representado. Um stabat mater, sim, mas bucólico e mostrando a crucificação com a mesma jovialidade com que se mostra as vindimas, as sementeiras ou colheita de cereais.

Será Gauguin ateu, querendo exibir uma orgulhosa indiferença face à morte horrível de um deus em que não acredita? Ou devemos fazer a leitura contrária? Na mesma linha do docetismo do século II, que defendia a tese de que o corpo de Cristo e a sua crucificação eram aparentes, real era apenas a natureza sobrenatural de Cristo. Neste sentido, ao puerilizar a crucificação, Gauguin poderá estar a desdramatizar o horror da cruz, a mostrar tranquilidade perante o que não passa de uma simples aparência do visível, em contraste com a subida de Cristo ao céu.

Mas será que um pintor pensa como um teólogo ou um filósofo? Claro que um pintor pode interessar-se pela abstracção das teorias e haverá mesmo pintores que pensam com o pincel. Mas um pintor é, acima de tudo, um pintor. A sua estrutura mental não é feita de teorias, conceitos, princípios, argumentos, fórmulas. É feita de cores linhas, de formas, perspectivas, texturas.

O que Gaugin quis aqui fazer foi enaltecer e dignificar o amarelo. Como numa pintura fauvé, a cor não surge aqui para explicar as coisas, as coisas é que existem para explicar a cor. Ao pintar um deus de amarelo, o nosso deus e não uma qualquer sincrética divindade do Taiti, está a divinizar o amarelo, uma cor que muito dificilmente será a cor preferida de alguém, ao contrário do azul, verde, lilás ou preto, e quase sempre visto como uma cor pouco séria. Nunca o associamos a momentos solenes, seja de felicidade ou de sofrimento. Não é espiritual mas também não é sensual.

Esta pintura poderá ser, pois, um estudo sobre as possibilidades do amarelo, um amarelo que pode existir para além do campo ou do Sol, um amarelo que se eleva até uma entidade absoluta. Mais do que pintar um deus de amarelo, pinta o amarelo num deus. E ao exibir uma continuidade cromática entre o primeiro e o segundo plano do quadro, o pintor mostra o amarelo como uma cor tanto do profano como do sagrado. Um amarelo que tanto pode simbolizar a ressurreição da natureza, como a ressurreição de um homem que nunca irá envelhecer. Como se diz amarelo em francês?