14 março, 2015

LEVA-ME AO CINEMA

Krzysztof Kieslowski | A Dulpa Vida de Verónique [fotograma]

Não se pode acusar Duane Michals de querer puxar a brasa à sua sardinha. Apesar de fotógrafo, não considera ser a fotografia a linguagem moderna por excelência. Para ele, a nossa era é a do cinema. Os maiores artistas do nosso tempo não são os pintores, os escultores, os músicos, os fotógrafos. São os cineastas. Tem toda a razão, uma vez que o cinema, apesar de ter nascido ainda no século XIX, é a única arte exclusivamente associada ao século XX.

Porém, isto também me  fez pensar no seguinte: por que razão é  tão fácil para um cidadão comum lançar para o ar dezenas de nomes de pintores ou escultores de diferentes épocas até à primeira metade do século XX mas, depois disso, já se começa a balbuciar, lá saindo um ou outro mas com muito custo? Por que razão são tão poucos conhecidos os artistas contemporâneos, e cada vez menos à medida que nos aproximamos do século XXI?

Porque há em grande parte da arte contemporânea um excessivo experimentalismo, um exacerbado conceptualismo, uma sugestão de decadência. Mais do que cosa mentale, grande parte da arte contemporânea é cosa insane que parece saída directamente de hospitais psiquiátricos. Há em grande parte da arte contemporânea uma sugestão de fim de festa, de divórcio entre o público e os artistas, um predomínio de interesses mercantilistas que vivem à custa da fetichização da "obra de arte" em detrimento de um valor efectivamente estético. Grande parte da arte contemporânea é uma fraude e uma fraude com largas vantagens financeiras para quem faz da arte um negócio como outro qualquer.

Mas há uma excepção: o cinema. Não apenas por ser uma criação do século XX mas uma criação do século XX que salvou a arte. O cinema, que substituiu a ópera como obra de arte total, é, ao contrário de muitos outros géneros artísticos, e apesar de ser uma indústria com interesses lucrativos, uma arte construtiva, uma arte em contínuo processo criativo, uma arte que comunica e que, por isso, solicita o público para a acompanhar nesse processo, seja um cinema de grandes multidões, seja um cinema de autor e mais depurado esteticamente. Daí ser tão fácil começar a dizer nomes de realizadores com a mesma facilidade com que se dizem nomes de pintores ou escultores de outros tempos. Realizadores que tanto podem ser americanos como franceses, italianos, alemães, ingleses, espanhóis, russos, dinamarqueses, suecos ou até portugueses. Não é preciso ser cinéfilo para invocar nomes como Eisenstein, Chaplin, Ford, Kazan, Wilder, Preminger, Wise, Hitchcock, Spielberg, Coppola, Scorcese, Truffaut, Resnais, Chabrol, Rohmer, Dreyer, Bergman, Polanski, Pasolini, Fellini, Rosselini, Visconti, Fassbinder,  Buñuel, Von Trier ou Oliveira.  

Quando Hegel, no século XIX, anteviu a morte da arte, falhou. Mas tem desculpa. No início do século XIX seria impossível prever o milagre do cinema.