02 março, 2015

DOCTA IGNORÂNCIA

Rui Palha | Lisboa

Num teste de Filosofia de 11º ano, pergunto quais destas proposições são verdades necessárias e a priori ou verdades contingentes e a posteriori:

a) Chove;
b) Um objecto azul é um objecto com cor;
c) X+Y = Y+X;
d) Roma é a capital de Itália;
e) Ou estou na praia ou não estou na praia;
f) Portugal está condenado a viver em crise durante os próximos anos;
g) Nenhum solteiro é casado.

Rapidamente. As proposições b), c), e) e g) são verdades necessárias e a priori, pois são intrinsecamente verdadeiras. Dispensam qualquer tipo de experiência pois nada dependem do que acontece ou deixa de acontecer no mundo, apenas do que a razão estabelece como sendo verdadeiro. Neste caso, uma proposição e a sua contrária não podem ser simultaneamente verdadeiras. Se "x+y = y+x" for verdadeiro, "x+y ≠ y+x" será forçosamente falso, do mesmo modo que não pode ser simultaneamente verdadeiro estar e não estar na praia, tal como é logicamente impossível um solteiro ser casado.

Já as proposições a), d) e f), sendo verdadeiras, são contingentes e a sua verdade estabelecida a posteriori. É verdade que chove mas se não chovesse seria igualmente verdadeira a proposição "Não chove". Estas verdades dependem, portanto, do modo como o mundo se apresenta, sendo por isso preciso recorrer à experiência para as estabelecer. São verdades, sim, mas contingentes, verdades que poderiam não o ter sido e, nesse caso, o seu contrário seria igualmente legítimo. Não pode ser simultaneamente verdadeiro que um objecto azul seja um objecto com cor e sem cor, mas pode ser tão legítimo dizer "O Luís tem uma camisola azul" como dizer "O Luís não tem uma camisola azul", uma vez que a experiência tanto pode mostrar que o Luís tem uma camisola azul como mostrar que o Luís não tem uma camisola azul, na mesma linha do que acontece com a chuva.

Vários alunos consideraram a alínea f) uma proposição necessária e a priori. Erro crasso, imperdoável num estudante de Filosofia de 11º ano. Mas sabe deus o que me custou considerar a resposta errada e ser obrigado a descontar na cotação. Diz-se que ladrão que rouba ladrão merece cem anos de perdão. Neste caso, o disparate e a ignorância deviam merecer umas décimas de perdão.