15 março, 2015

DIAS DE LUZ PERFEITA E EXACTA

Heinrich Kühn (1907-8)

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Alberto Caeiro, Poema XXVI


Em dias de luz perfeita e exacta, a linguagem é uma doença, o vírus vindo do espaço de que falava William S. Burroughs, um vírus que nos afasta do mundo. A linguagem não passa de uma ferramenta, assim como um abre-latas, um martelo ou alicate. É necessária, sim, mas em dias de luz perfeita e exacta, recorrer à linguagem, a conceitos, é como entrar numa loja de ferragens onde existem ferramentas para tratar de um jardim, em vez de passear no próprio jardim.

O que significa dizer que uma coisa é bela? O que é a beleza? Dirá Platão que uma coisa é bela porque participa da ideia de beleza. Uma ideia única que serve para conferir beleza a tudo o que seja belo. Mas o que há de comum entre a serra de Sintra, um quadro de Vermeer, um perfil feminino ao lusco-fusco, uma abadia em ruínas, o concerto para piano de Ravel ou uma laranja numa fruteira com mar ao fundo? O que há de comum entre a natureza vegetal de uma árvore e a natureza musical de uma sonata? O que há de comum entre o rosto de uma mulher e um destroço de pedras medievais condenadas pelo peso dos séculos? O que há de comum entre a sublime imensidão do mar e a harmonia contida de uma flor? Nada. No entanto, tudo isso fica submetido à categoria de beleza. Mas o que é beleza? Que cor tem a beleza? Que cheiro tem a beleza? Que forma tem a beleza?

Desde Platão que fazemos depender a estética da epistemologia. Mas em dias de luz perfeita e exacta, isso significa transformar a nossa alma no escuro e húmido gabinete de Fausto. Sobretudo em dias de luz perfeita e exacta, nada melhor do que arejar o espírito, abrir-lhe todas as janelas para o libertar dos vírus conceptuais que fazem adoecer os sentidos.